Madalena Amaro: “Sei muito bem o que é que vim fazer para os EUA”
Acompanhe a vida da jovem atleta nos Estados Unidos da América
Atletas
8 JAN 2026
Aos 17 anos, a base algarvia Madalena Amaro vive as primeiras semanas na NCAA ao serviço de Monmouth, e já soma minutos importantes como freshman num contexto altamente competitivo. Com um percurso que liga SC Farense, Imortal, CAR Jamor e Sporting, onde ajudou à conquista da II Liga e à subida ao principal escalão, a internacional jovem portuguesa aterrou nos Estados Unidos com as ideias arrumadas.
Em entrevista a Ricardo Brito Reis, Madalena fala do choque físico e cultural do basquetebol universitário norte-americano, explica como a experiência no Basketball Without Borders Europe e nas seleções jovens reforçou a sua capacidade de liderar em campo, descreve o dia a dia numa realidade em que treinos, viagens e aulas se atropelam e assume sem rodeios a ambição de «ser jogadora de basquete profissional» e, um dia, chegar à Seleção A.
Como têm sido as primeiras semanas na NCAA? Sentes um misto de realização, porque era algo que ambicionavas, ou de choque com a nova realidade?
Sim, claramente que há essas duas vertentes. Essa sensação de realização, porque sempre foi uma coisa que eu ambicionava: vir jogar para os Estados Unidos. Acho que a maioria das pessoas que jogam, principalmente em Portugal e que querem levar o basquete como futuro, já pensaram em jogar aqui. Mas, ao mesmo tempo, é um choque. Não é só um choque no desporto, é um choque em termos de cultura, de língua, de comida, e isso para mim foi muito evidente.
Mas sinto que me estou a adaptar bem. É uma realidade completamente diferente, mas vim para cá com os meus objetivos definidos. Sei muito bem o que é que eu vim cá fazer. Quero crescer como atleta, acima de tudo, mas também como pessoa.
Existem diferenças que nos levam a parar um bocadinho para pensar, principalmente no estilo de jogo, na intensidade e na velocidade do jogo aqui na NCAA. Em Portugal, uma jogadora aguenta bem 40 minutos. Aqui eu vi-me à rasca. Em Portugal fiz alguns jogos de 40 minutos e, aqui, no meu primeiro jogo, joguei 17 minutos e pensei: “não dá mais, não dá mais”. Entretanto, fui-me habituando. Eles dizem que sou, de certa forma, atlética. Tenho estado a trabalhar para desenvolver o meu corpo e para o adaptar a este estilo de jogo. É um jogo muito rápido e intenso. Portanto, existe sempre esse choque quando começamos, mas nada que umas semanas e mais uns quantos jogos não resolvam.
A verdade é que, pelo menos nos últimos jogos, já estás a jogar acima dos 30 minutos. Essa habituação está a acontecer rápido. Disseste uma frase que me chamou a atenção: “sei muito bem o que é que vim cá fazer”. O que é que tu queres com esta experiência?
Eu diria que desde o ano em que fui para o Sporting, o meu primeiro ano no Sporting, quando mudei a minha vida… Porque sou do Algarve, sou de Faro, mas cheguei ao Imortal, portanto aí já estava um bocadinho fora da minha casa, da minha zona. Mas quando mudei mesmo para Lisboa definitivamente e fiquei lá a viver, comecei a levar o basquete muito mais a sério.
Sei que quero ser jogadora de basquete profissional, sei que isto é o que eu quero, que isto seja o meu futuro. É difícil em Portugal, não só pelas condições – e está cada vez a melhorar, a federação e os clubes estão cada vez a proporcionar aos atletas melhores condições – mas sei que ainda é muito difícil uma atleta conseguir viver totalmente do basquete em Portugal.
Desde que mudei esse ano para o Sporting, sabia que tinha de ser uma coisa que tinha de levar muito mais a sério do que já levava. Vim para cá com essa ambição. Quero adicionar coisas ao meu estilo de jogo, quero ser uma jogadora mais completa e, ao mesmo tempo, desenvolver aquilo que já fazia minimamente bem, porque nunca fazemos tudo no melhor que é possível. E ainda por cima sou uma pessoa muito exigente comigo, não só em aspetos fora do basquete, mas também no basquete. Gosto muito de fazer as coisas direitinhas.
Vim para cá com essa mentalidade e esses objetivos definidos: quero acrescentar coisas ao meu estilo de jogo, quero tirar o melhor proveito desta experiência, aprender uma língua nova, tirar um curso relacionado com aquilo que gosto, que são as áreas da economia, caso o basquete não dê certo como espero. É aproveitar aquilo que os Estados Unidos nos dão, tirar um bocadinho de tudo e juntar à pessoa que sou, e à pessoa que tenho vindo a tornar-me.
Estás a estudar nessa área. Que curso é exatamente?
Estou a tirar Business com Marketing.
Pareces ter um desenho de carreira muito bem definido na tua cabeça. Quando saíste do Algarve, do Imortal, e foste para o Sporting, sentiste logo que estavas a dar um passo decisivo? Foi aí que saíste mesmo da zona de conforto e ganhaste esta ambição de querer fazer disto carreira?
Sim, foi sem dúvida esse salto. Para começar, fui para o CAR e ainda fiz o meu primeiro ano de CAR no Imortal. Ainda voltava a casa todos os fins de semana. Mas quando saí do CAR… ainda fiz o meu segundo ano no CAR e no Sporting.
Diria que o meu último ano de Sporting, ou seja, o ano passado, em que saí do CAR, vivi sozinha, partilhei a casa com duas americanas e uma colega da minha equipa também do Sporting, e passei praticamente a fazer tudo sozinha. Ia para a escola sozinha, ia para os treinos sozinha. Vivia sozinha, sem os pais a fazerem as coisas por mim.
Diria que foi no ano passado que dei mesmo o salto e aprendi muitas coisas. É tão bom termos essa liberdade para crescer e para perceber aquilo que é certo e aquilo que não é certo. Tenho muita sorte: os meus pais sempre me apoiaram, sempre me deram essa liberdade.
O ano passado foi mesmo aquele salto, porque tive de aprender a fazer muito do que não sabia sozinha, e isso fez-me crescer não só como pessoa, mas como atleta também. O Sporting, o ano passado, foi para mim o melhor ano em termos individuais. A escola correu muito bem. No clube, gostava de ter tido a oportunidade de me desenvolver um bocadinho mais na equipa sénior, mas gostei muito do grupo da sub-18, alcançámos coisas muito boas, ficámos em segundo lugar nacional, gostei muito dos meus treinadores, de quem me acompanhou. Portanto, diria claramente que o ano passado foi o ano decisivo e que me deu o “ok, estás preparada para ir para os Estados Unidos”.
Em que momento é que esta ideia de ir para os Estados Unidos entrou mesmo na tua cabeça como plano real?
Esta ideia já existia quando estava no meu primeiro ano de CAR, porque a Mariana Kostourkova dava-nos muito essa visão. Muitas vezes fazia várias atividades e trazia miúdas que já tinham estado cá há uns anos e muitas delas passaram pelos Estados Unidos. Depois também tinha várias amigas… No Europeu de sub-18 em Matosinhos, era nesse ano que a maioria das portuguesas que estavam nessa equipa iam para os Estados Unidos.
Portanto, isso sempre foi uma coisa que, na minha cabeça, fazia sentido. Depois de ver tanta gente a dar esse passo e a dizer que gostou – claro que são experiências diferentes, às vezes umas não têm tanta sorte como outras –, acho que esse foi o momento. Já há algum tempo sabia que queria, mas depois desse Europeu, quando a maioria das minhas amigas foi, disse mesmo: “sim, é seguro ir e faz sentido ir”. Acho que foi uma confirmação.
E como é que foi o processo de recrutamento? Tiveste várias universidades interessadas, tiveste alguém a tratar do processo em Portugal?
O meu primeiro convite foi no meu primeiro Europeu de sub-16, já foi há uns quantos anos, acho que foi em 2022 ou 2023. Diria que a maior parte dos convites vem por causa dos Europeus. Quando vamos ao Europeu e nos mostramos, está muita malta das universidades lá a ver. É a partir daí que te começam a contactar.
Entretanto, nessa altura, no meu primeiro ano de sub-16, quando fui para o CAR, ainda não sabia bem, não tinha certeza, andava com muitas dúvidas, não sabia bem o que queria, então deixei um bocadinho essa opção de lado. No ano seguinte, lesionei-me, era o meu último ano de sub-16. Lesionei-me antes do Europeu, torci o pé num jogo de preparação e acabei por não ir ao Europeu.
Onde tudo começou mais a sério foi no meu primeiro ano de sub-18, depois do Europeu de Matosinhos. Começaram a falar comigo, várias universidades surgiram, não sei se foram quatro ou cinco. E, entretanto, surgiu também aquilo que agora considero uma amiga, que trabalha para as universidades e ajuda no recrutamento: mostra, contacta, fala com a pessoa, pede vídeos, faz o trabalho por ti dos highlights, manda para as várias universidades e depois apresenta as universidades que estão dispostas a dar scholarships. Chama-se Rachel Galligan, ajudou também a Joana Magalhães. Foi a minha ajuda.
Decidi isto em novembro do ano passado, portanto uns bons meses antes de realmente vir para cá, porque surgiram várias opções, mas isto funciona com duas janelas: novembro e abril. Na altura, esta zona pareceu-me impecável. Porquê? Porque estou no estado de New Jersey, ao lado de Nova Iorque, que para a maioria das pessoas, pelo menos para mim, sempre foi um sonho. É o mais perto de Portugal, é muito fácil. Tem uma comunidade de portugueses muito perto aqui em Nova Iorque. Tenho família, não de primeiro grau, mas tenho família do lado do meu pai a viver a 15 minutos. Tenho primas a 15 minutos. Ainda ontem foi o Thanksgiving e estivemos todas lá a jantar.
Depois achei ideal porque me mostraram quem era o roster, quem é que tinham. E realmente uma base era importante nesta equipa, porque não faz sentido irmos para uma equipa que está cheia de bases ou de jogadoras da posição que queremos jogar. Achei que seria a equipa ideal. Não é uma universidade “wow”, mas é uma universidade boa, numa conferência competitiva. Portanto, achei que seria o ideal para poder jogar, porque acima de tudo o que quero é jogar. Quero vir para cá e jogar, não quero vir para ficar no banco.
Agora que já estás instalada, como é um dia normal da Madalena Amaro em Monmouth, desde que acordas até te deitares?
Acordo normalmente sempre entre as 7h00 e as 7h15. Gosto de ter o meu tempo para me preparar. Depois tenho aulas, às 8h30 e normalmente até às 11h25.
Depois vou direto para o pavilhão porque treinamos nessa hora de almoço. Vou para o pavilhão, fisioterapia, ligar os pés, exercícios… Às vezes tenho treinos individuais de manhã, quando não tenho aulas. Depois treinamos cerca de 3 horas. Temos ginásio normalmente 45 minutos e depois fazemos treino de equipa. São muitas horas de treino.
Depois do treino fico sempre mais um bocado no pavilhão a fazer lançamentos extra. Às vezes, quando não tenho treino individual de manhã, tenho depois. Depois saio, tomo banho, como qualquer coisa e tenho aulas. Por exemplo, a terça-feira é chata porque saio do treino e tenho aulas das 16h30 às 18h00 e das 18h00 às 21h00. Portanto, a terça-feira é um dia chato. Normalmente, nos outros dias, depois do treino tenho só uma aula entre as 17h00 e as 18h00. É um dia muito intenso. Às vezes, quando só tenho aula até às 18h00, volto ao pavilhão para fazer mais lançamentos.
Esta vida de atleta na NCAA envolve viagens. Tem sido fácil conciliar com a parte académica?
Vou ser sincera: acho que, para a malta de fora, principalmente da Europa e diria também de Portugal, temos um nível académico muito mais exigente. O nível académico aqui não é tão exigente como em Portugal. Mas, mesmo assim, requer tempo, requer gestão de tempo.
Por causa dos jogos, por exemplo, nas últimas semanas temos faltado a várias aulas porque estamos a viajar e é sempre difícil essa parte de gestão do tempo e depois conseguir apanhar tudo. Porque é faculdade, as pessoas não se preocupam tanto como no high school, no secundário. Mas acho que se faz bem, acho que se aguenta bem. E o nível não é tão exigente.
Tens a sorte de ter a Fatumata Djaló na mesma equipa. Isso acaba por ser uma ajuda importante, tanto na adaptação à NCAA como no dia a dia?
Sim, é uma ajuda enorme. Quando assinei com esta faculdade, não sabia que ela vinha para cá. Só soube depois. Por acaso nunca lhe perguntei se escolheu vir para aqui porque eu já cá estava, tenho de lhe perguntar. Mas é uma ajuda
imensa, sim, porque não só já está habituada a este estilo de jogo, como o inglês também já é mais familiar, principalmente em termos técnicos do basquete.
No início foi muito útil porque eu estava muito perdida e ela já cá tinha estado no verão. Eles utilizam muito o verão para treinos individuais, e eu nessa altura tinha estado no Europeu. Ela já cá tinha estado durante quase um mês, então já sabia mais ou menos como funcionava, o que é que a treinadora queria. No início disse-me mesmo: “esta treinadora quer isto, isto e isto, aproveita, tenta fazer isto, isto e isto”. Foi muito mais fácil.
É muito melhor porque posso falar português. Estamos sempre a falar português uma com a outra. Às vezes as miúdas da nossa equipa até ficam a olhar para nós. Eu percebo, mas nós… “Desculpem, não estamos a falar de vocês, é só porque é mais fácil”. Mas é uma ajuda, sim.
Falaste há pouco da diferença física e da velocidade do jogo. No teu caso, és base, tens a bola na mão, tens de ser uma extensão da treinadora dentro de campo, pensar o jogo. Qual tem sido a parte mais difícil deste processo dentro de campo?
A parte mais difícil é, claramente, o querer jogar rápido. Este é o estilo de jogo que a nossa treinadora quer. Temos uma equipa praticamente toda nova. Ela quer jogar a mil, quer jogar em contra-ataque, em transição, e aposta muito em mim porque sou muito rápida. Estou a conseguir fazer bem esse trabalho do primeiro passo, do ganhar o ressalto eu mesma e explodir e sair em transição.
Mas, ao mesmo tempo, quero conseguir meter aquilo que sempre soube fazer, que é jogar um jogo calmo, com visão de jogo. Isso tem sido a maior dificuldade, porque ainda não consegui arranjar esse balanço. Estou a tentar arranjar esse balanço entre jogar rápido e saber quando jogar rápido, mas depois saber abrandar o jogo. Preciso disso para poder mostrar o melhor de mim, dar o melhor à minha equipa, que é aquilo que faço melhor: jogar de forma calma, organizar o jogo.
Ainda não consegui arranjar esse balanço. Sinto que estou sempre a mil dentro de campo. Ela adora isso, adora na maioria das vezes. Quando faço turnovers a querer passar a bola, porque estou tão explosiva, tão elétrica, tão rápida, aí já não adora tanto. Mas adora que eu pegue na bola e comece a correr o campo, porque é isso mesmo que ela quer. Agora tenho de conseguir arranjar um equilíbrio entre: “pronto, não dá contra-ataque, não há transição rápida, voltar a bola para mim para poder organizar o jogo”.
Depois o jogo é muito dividido. O jogo acaba sempre normalmente na mão da melhor jogadora, da jogadora que decide. E acaba sempre por jogar um bocadinho direto. A bola acaba dentro, também, com os postes. Portanto, é um jogo rápido, físico e um bocadinho mais dividido. Não é tão coletivo como em Portugal.
Já jogaste contra programas fortes. O nível competitivo da NCAA surpreendeu-te ou era o que esperavas?
Completamente. O nosso primeiro jogo foi contra uma equipa da segunda divisão e as miúdas não eram nada de especial. Mas o nosso segundo jogo foi logo contra Kentucky, fora. Foi uma brutalidade. Aquilo foi um choque. Não é que me sentisse envergonhada, mas foi mesmo um jogo duríssimo, de lá estar, no banco ou a jogar, porque entrava dentro de campo e parecia que não conseguia respirar. As miúdas todas enormes, fortes… Tentavas ir para o cesto, abafavam. Contacto que achas que é falta e não é falta. Foi um choque brutal.
Mas agora já me estou a adaptar. Depois também depende do tipo de equipa. Jogámos contra Howard, que são miúdas físicas, fortes. Mas jogámos agora o último jogo contra Marist, que são miúdas mais parecidas com Portugal, que não gostam tanto de contacto, gostam muito de lançar de fora, fazem muitos movimentos, fazem muitas leituras. Portanto, apanhas vários tipos de equipas, com filosofias diferentes de jogo. Depende do treinador e da equipa que te confronta. Tens esse impacto e aos poucos vais-te habituando.
E, pelo meio disso tudo, ainda há espaço para o teu passe por trás das costas, que já era marca registada em Portugal…
No ano passado estavam sempre a gozar comigo porque isso era aquilo que chamo o meu signature move. Toda a gente sabia que, quando ia em 2×1, ia sempre fazer um passe por trás das costas. Aqui, quando fiz no meu primeiro jogo, elas ficaram chocadas.
Vou explicar: prefiro fazer um passe por trás das costas com a mão direita do que um passe normal com a esquerda, porque me sinto muito mais à vontade com a direita. E depois dá aquele toque de ser por trás das costas. Mas levei um raspanete ontem, porque estávamos a ver o vídeo do jogo e fiz um passe por trás das costas a faltarem 30 segundos, quando devia ter guardado a bola em overtime. Ela já me deu na cabeça. Disse: “sim, é verdade, foi um passe muito giro, mas não voltes a fazer isto”. E eu também pedi desculpa.
Voltando um pouco atrás, tiveste também a experiência do Basketball Without Borders. Como foi estar num campo europeu com algumas das melhores prospects da Europa e, além disso, seres escolhida para o cinco All-Star e MVP dos playoffs?
Quando recebi o convite, não tinha bem noção do que aquilo era. Sabia que ia estar com jogadoras muito boas, que já tinha enfrentado nos Europeus, com uma qualidade brutal. Cheguei lá só com um objetivo: sabia que estávamos todas para o mesmo, todas a jogar basquete, e que isso não nos diferenciava.
Os primeiros dias foram… Aquilo era muito interessante. Treinávamos de manhã, tínhamos condições brutais, deram-nos imensas roupas, casacos, sapatilhas, essas coisas todas. Foi um choque porque as meninas eram todas muito boas. Formavam equipas e as equipas tinham todas uma estrela, tinham todas estrelas. Aquilo eram equipas cheias de estrelas. Até comentava com os meus pais: “isto não está a correr tão bem”.
Sinceramente, ainda hoje não sei bem como é que surgiu esse prémio. Acho que o único motivo que vejo é mesmo a capacidade de organização do jogo, de base, dos passes que fazia. Em termos de técnica individual, vi miúdas fazer lá coisas que nunca na vida conseguiria, que não consigo fazer, que outras miúdas não conseguiam fazer. Havia lá uma miúda de Israel que era uma coisa… Pegava na bola, um género de freestyle, step-back com mudanças de direção brutais. Fiquei chocada.
Mas foi uma experiência muito gira: jogar basquete com miúdas muito boas de outros países, perceber também o que é que elas acham do jogo, e com treinadores que ou foram estrelas da NBA ou da WNBA. Tínhamos dois jogadores que estão atualmente ainda na NBA: era o Collin Sexton e já não sei o outro. Foi uma experiência muito enriquecedora.
Falaste várias vezes da tua capacidade de organizar e liderar dentro de campo. Sentes que experiências como o Basketball Without Borders e as seleções jovens de Portugal têm sido importantes para essa tua capacidade de liderança?
Sim, acho que sim. Acima de tudo, por causa das adversidades que passo e dos diferentes tipos de equipas onde jogo. Adaptar a equipa, as colegas e o ambiente em que estou ao meu estilo de jogo, e ver de que maneira posso ser útil… Tudo isso só me traz coisas boas e adiciona um bocadinho ao pacote daquilo que já sou como jogadora e do que posso vir a ser.
Tento sempre tirar um bocadinho de tudo por onde passo. Ou seja, passo por uma equipa, tento ver que pessoas lá estão, que estilo de jogo têm e ver de que maneira é que posso adaptar ao meu e ser útil mesmo assim. Faço isso com todas as equipas. Atenção também aos treinadores, porque os treinadores falam contigo e pedem coisas específicas, o que é que querem, o que é que procuram que faças.
Sinto que tudo isso me enriquece como jogadora e é importante ter essa oportunidade. Sou muito grata por ter essa oportunidade de jogar nas camadas jovens da seleção e espero que continue a ser assim. Ainda tenho dois anos de sub-20. E, por outro lado, também ter a oportunidade de estar no CAR com miúdas da minha idade e mais novas, ter estado no Farense, no Imortal, no Sporting, jogar sub-18 e jogar sénior também. E agora nos Estados Unidos, com malta mais velha e com um estilo de jogo completamente diferente.
Quem são as tuas referências, os teus ídolos no basquete?
Não diria que seja “ídola”, mas gosto muito, muito, muito de ver jogar a Carolina Rodrigues. Gosto mesmo. Ainda agora estive, recentemente, a ver o jogo que elas tiveram, que foi brutal. Começaram bem, as bolas entraram e explodiram com o resultado completamente. Gosto muito de ver a Carolina jogar. Diria que ela é mais uma inspiração, porque também joga a base, tem uma capacidade brutal de sair ao pé das defensoras, tirá-las da frente, tem um controlo de bola brutal, lança bem… Gosto muito do estilo de jogo dela.
E também gosto muito da Márcia Costa, não só pela pessoa, porque já tive a oportunidade de estar com ela, mas também pela agressividade, pela garra que tem a defender e pelo modo como sente o basquete, principalmente quando veste a camisola de Portugal. Diria que são as minhas duas maiores referências. E porque estão a jogar também na seleção de Portugal.
A Seleção A é, obviamente, um objetivo para ti.
Claro, claro que sim. É um objetivo que, não diria que parece estar longe, porque está, na verdade, porque ainda sou jovem, mas é claramente um objetivo que tenciono atingir, sim.
Tens objetivos de longo prazo bem definidos. Mas em termos de curto prazo, para esta época, também trabalhas com metas concretas?
Sim, claro que sim. Defino objetivos diariamente, todos os dias quando acordo defino objetivos para o dia e principalmente para os jogos e para os treinos. Aqui tenho adicionado muitos mais porque surgem barreiras, obstáculos com os quais não estava à espera.
Mas uma coisa é certa: quando vim para cá, no meu primeiro ano, nunca tive o objetivo de… isto pode parecer estranho, mas nunca tive o objetivo de ser cinco inicial, porque já tinha ouvido falar que é muito difícil entrar no cinco como freshman e sendo internacional. E, ainda por cima, sabendo das histórias das minhas outras colegas, nunca vim para cá com esse objetivo. Claro que toda a gente quer ser cinco inicial e ter esse papel, mas nunca foi um objetivo.
Os meus objetivos para começar sempre foram melhorar aquilo em que não sou tão boa. Por exemplo, quero muito ter um lançamento exterior mais eficaz, quero muito que isso seja uma coisa natural no meu jogo, porque uma base não passa só pela organização do jogo. Quando a bola te vem à mão, tens de ser capaz de a meter no cesto. E de fora sinto que sempre foi uma coisa em que nunca fui tão boa.
Depois, melhorar a capacidade de jogar com a esquerda. Quero saber jogar tão bem com a esquerda como jogo com a direita. Não é que não saiba jogar com a esquerda, nada disso, mas quero dominar as duas mãos. Sentir-me à vontade para fazer tudo com a esquerda como faço com a direita.
Agora, este ano, uma vez que já sou cinco inicial – claro que isto muda, nos primeiros jogos não era, nos últimos fui cinco inicial – e como a bola passa muito pelas minhas mãos, é aquela questão de arranjar o balanço entre a velocidade, ser rápida e aquilo que sei fazer, porque isso leva-me a ter turnovers. No jogo passado fiz três turnovers. Para quem passa o tempo todo com a bola na mão e fez sete assistências, não é uma brutalidade, mas sei que sou capaz de reduzir a quantidade de turnovers que faço. E passa só por aí, porque os meus turnovers foram todos nesse aspeto: a sprintar o campo, a querer passar a bola para dentro porque a treinadora quer que a bola entre dentro, mas a não ponderar bem como fazer porque ainda não arranjei esse balanço.
Portanto, os meus objetivos agora são reduzir os turnovers por jogo e por treino, porque também contamos os turnovers por treino. E uma coisa muito importante: reagir melhor ao erro. Tenho muita dificuldade nisso, porque sou tão perfeccionista, gosto de fazer as coisas tão bem, que fico muito frustrada, muito frustrada comigo mesma. A treinadora já falou comigo e disse: “o teu maior inimigo és tu mesma”. São esses os dois principais objetivos que tenho agora, mais a curto prazo.
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