Pedro Santos: “Percebi o quão difícil é jogar aqui”

Ricardo Brito Reis à conversa com um dos apenas três portugueses a jogar na Division I da NCAA masculina

Atletas
1 MAI 2026

Pedro Santos é um de apenas três portugueses a jogar na Division I da NCAA masculina. Em entrevista exclusiva à FPB, o base/extremo conta o que foram as duas primeiras épocas na Universidade do Tennessee em Martin: um ano inteiro de redshirt sem pisar o campo, um choque com o treinador sobre o tipo de jogador que devia ser, e uma época a descobrir onde cabia num sistema que não era o seu.

Acabou no top-10 da conferência Ohio Valley em roubos de bola, viu a sua equipa igualar o recorde histórico do programa com 22 vitórias e já anunciou que entra no transfer portal. A passagem de Pedro Santos na UT Martin é uma história de adaptação forçada, de crescimento físico e técnico, e de um jogador que percebeu o que é bom a fazer, mas que quer provar que consegue fazer mais do que isso.

 

O que fica desta primeira época a jogar verdadeiramente, agora que terminou e tiveste uns dias para reflectir?

Foi uma época que correu bem. Ganhámos muitos jogos, e para uma primeira época acho que foi positiva. Passei por tudo — houve momentos em que joguei menos, momentos em que joguei mais. No coletivo foi uma boa época. Desenvolvi o que tinha a desenvolver. Se calhar não fiz os números que esperava, mas evoluí muito como jogador e percebi o quão difícil é jogar aqui nesta liga. Não tinha bem essa noção.

Acabaram com 22 vitórias, igualando o recorde histórico do programa.

Ficámos empatados em primeiro. Foi muito bom.

 

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Qual foi a maior dificuldade de adaptação ao basquetebol americano?

Quando entrei a primeira vez não estava habituado. A liga portuguesa também é muito física, mas o que senti mais foi a velocidade do jogo. Fazem tudo muito mais rápido. Foi isso que tive mais dificuldade em adaptar.

Quando escolheste a UT Martin, tinhas outras opções em cima da mesa?

Assinei muito cedo. O treinador já me acompanhava há algum tempo — eu queria ir para os Estados Unidos um ano antes, mas ainda tinha contrato com o FC Porto e eles não me deixaram sair. Pedi para ser emprestado ao Imortal, e foi durante essa época que estive sempre em contacto com ele. Nunca cheguei a falar com outras escolas. Quando assinei, ainda estava a jogar no Imortal.

A UT Martin é provavelmente a equipa D1 com mais jogadores internacionais do país. É difícil olhar para o roster e encontrar um americano. Como é jogar num balneário em que toda a gente percebe o que é estar longe de casa?

Acho que foi isso que nos ajudou a ter uma época tão boa e que nos trouxe mais unidos uns aos outros. Cada um entendia o que o outro podia estar a passar. Fomos uma equipa muito unida, e acredito que foi esse o nosso sucesso coletivo — cada um sabia o que o outro vivia. Mesmo os americanos foram todos impecáveis connosco.

Mas por outro lado vieram todos de realidades de basquetebol diferentes.

Exatamente. Estávamos habituados a jogar tipos de basquetebol diferentes. Mas foi fácil porque o nosso treinador tem uma filosofia de jogo muito própria — uma coisa que eu nunca tinha visto antes. Estávamos todos a trabalhar para o mesmo sítio, então acabávamos por não notar muita diferença.

E a gestão entre o desporto e a parte académica foi difícil?

Não, para ser sincero ajudam-nos muito. Facilita muito para nós que somos atletas. Tenho muitas aulas online. Estou em Sports Business and Management e não posso reclamar.

Saíste de Portugal com cerca de menos dez quilos do que tens agora. Esse ganho físico aconteceu durante o ano de redshirt?

Sim. Como estava a fazer redshirt, aproveitei para me desenvolver fisicamente. Neste momento estou com perto de 95 quilos. Quando saí de Portugal tinha 85. E tenho 2,01 metros, por aí.

Um ano a treinar sem jogar dá-te alguma coisa mas também te tira outra. O que ganhaste que não tinhas antes?

Foi complicado. Mas o que ganhei foi mesmo o tempo que normalmente não tens durante a época para desenvolver alguns aspectos do jogo — física e tecnicamente. Investi muito no físico e tentei perceber como é que isto funcionava, para estar mais preparado quando chegasse a altura. E mesmo assim não percebi tudo — achei que seria mais fácil do que foi.

Como te mantiveste motivado sem poder ter os jogos?

Era a parte mais difícil. Mas muito disso foi saber que ia jogar na seleção no Verão. Era para isso que eu treinava. A seleção era o objetivo.

Vi uma entrevista do teu treinador em que ele fala de uma conversa contigo sobre limitar os dribles e jogar mais como extremo 3-and-D, menos como base. Como viveste essa conversa? Ele deu a entender que não foi fácil de ouvir.

Eu e o meu treinador chocámos muito durante esta época. Ele via-me num papel que eu não me via. Ele queria-me como jogador 3-and-D — mais para marcar, menos com a bola na mão para criar para os outros, menos dribles, mais catch-and-shoot. Eu nunca fui esse tipo de jogador. Mas ele disse-me claramente: se queres jogar, vais ter que te habituar a jogar assim. E foi o que eu fiz. Tive que fazer essa adaptação, e foi por isso que tive tanta dificuldade no início, mas acabei a época já a começar no cinco e a jogar mais minutos. Não é o estilo que eu mais gosto, mas foi o que tive de fazer para conseguir jogar. Não gostei de ouvir algumas coisas que ele me disse, mas ao final do dia, ele é que sabe.

E acabas por te tornar mais versátil também, não é?

Sim, acho que melhorei muito a minha defesa por causa disso. Se calhar, da maneira que eu jogava no início, não sei se teria conseguido acabar no top-10 da conferência em roubos de bola.

Ele colocava-te a defender os melhores jogadores adversários?

Sim. Defendia o melhor jogador da equipa ou o base. Andava sempre ali na linha de triplo e roubava muitas linhas de passe.

Passado este ano assim, como te vês agora como jogador?

Percebi que ao nível mais alto já não há tanto espaço para o jogador que quer sempre a bola na mão. Há outros jogadores na equipa que vão ser melhores do que tu a driblar. Tens de perceber que alguém é sempre melhor do que tu a alguma coisa, então tens de descobrir aquilo que tu realmente és bom. E eu descobri que o que realmente sou bom é marcar pontos e defender. Tenho de me limitar a fazer isso com menos dribles e a tomar decisões mais rápidas. Nesse aspeto o meu treinador tinha razão. Mas noutros aspetos também não me quero limitar a ser só o lançador de três pontos, porque consigo fazer outras coisas. Foi aí que nós divergimos.

E acredito que tenha sido também por aí que tomaste a decisão de entrar no portal.

Exatamente. Falei com a minha família, o meu agente aconselhou-me, e outros que me ajudam aqui concordaram. Este estilo de jogo não é o melhor para mim. É um estilo perfeito para jogadores 3-and-D, mas para mim não é. Acho que é mesmo a melhor opção.

O portal abre a 7 de Abril. Já há interesse de outros programas?

Já temos falado com algumas faculdades, mas oficialmente o portal só abre dia 7 de Abril. Com as publicações nas redes sociais, tudo se sabe muito mais depressa agora, então vão começar a surgir mais oportunidades. A partir do dia 7 é quando vai começar mesmo a cair tudo, e depois é preciso tomar uma decisão.

Já identificaste universidades onde te encaixas melhor? Viste algumas ao longo da época na tua conferência?

Não vou ficar na minha conferência — aliás, nem quero. O objetivo é subir de nível. Há tantas faculdades onde eu gostaria de ir que não consigo nomear uma. O que procuro é o que se encaixar melhor com o meu estilo de jogo e que for uma situação melhor para mim.

Papel mais adequado, mais minutos, conferência superior — achas que é viável encontrar tudo isso?

Sim, sim. Já estamos a falar com escolas e tenho quase a certeza de que sim. Porque eu sei o que consigo fazer. E somos praticamente a única equipa da conferência a jogar desta forma — não tenho de procurar muito.

Qual era o plano que tinhas definido com a tua equipa para estes anos?

O que tínhamos definido era que este ano seria o ano para eu fazer números — 12, 13 pontos por jogo — e conseguir depois ir para uma faculdade de maior conferência. Infelizmente não correu como planeei, mas acho que precisava mesmo deste ano. Agora vou mudar para uma faculdade onde consiga fazer esses números, e ainda tenho mais dois anos de elegibilidade depois disso.

Este ano já ganhaste alguma coisa de NIL?

Sim, sim. E em princípio para o ano vou dar um grande salto nisso também — vou ter uma situação muito melhor. Mas ainda não vou ter a situação de uma major como o Rúben (Prey). Tenho que jogar mais um ano, fazer bons números, para conseguir isso. Tenho de lá chegar, não tenho dúvida.

Tu és um de apenas três portugueses homens a jogar na NCAA este ano. O Stanley Borden teve o azar que teve — estava em Duke e lesionou-se logo no início. O Rúben Prey rouba muito os holofotes. Se calhar vais começar a roubar-lhe um bocado do protagonismo agora.

Espero que sim. Falo com o Rúben às vezes — falei com ele no início do ano quando assinei com o meu agente, tinha algumas perguntas sobre percentagens e essas coisas. Deixei-lhe parabéns agora que ele ganhou. Ele já está numa situação diferente da minha, mas pode ser que comece a ficar melhor agora.

A ver se dás um saltinho para a Big East e vais jogar contra ele.

A Big East não vai ser já este ano, de certeza.

Este Verão já não podes ser convocado para o Sub-20. Mas a Seleção Sénior tem dois jogos em Julho na última janela de qualificação.

Nunca pensei nisso. Já falei com o Mário Gomes quando ele vinha ao Sub-20, mas nunca falámos sobre a Sénior. Se houver essa oportunidade, claro que seria muito bom.

 

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A tua mecânica de lançamento também evoluiu este ano?

Sim. Mudei o arco — antes lançava muito raso. Aqui trabalhei nisso e passei a exagerar mesmo no arco. Isto começou no Verão passado, quando o treinador me ligou a seguir a dois jogos da seleção em que fui a zero em cinco triplos e me disse para ir trabalhar o form shooting. A partir daí faço isso todos os dias, antes do aquecimento, em cada spot.

Mas mudar a mecânica de lançamento de alguém que está habituado a fazer dezenas de milhares de repetições sempre da mesma forma — quão difícil é isso?

Tens mesmo que lançar de uma maneira que te sinta estranha. O que eu fiz foi ir para o pavilhão e começar a lançar com um arco enorme — um arco que nunca iria usar num jogo. Mas era para exagerar mesmo. Ele disse-me: exagera até que um dia vai começar a sair mais natural, porque quando não estiveres a pensar em exagerar já vais começar automaticamente a lançar com mais arco. E foi isso que aconteceu. Mas foi um processo de muitos meses, e durante esse processo estava a falhar muito nos treinos porque estava a mudar a mecânica. O treinador sabia disso e apoiava — às vezes eu marcava mas sem arco e ele dizia-me que não estava bem.

A equipa técnica era muito grande?

Sim, eram oito ou nove treinadores. Cada dois ou três jogadores têm um treinador dedicado a ajudá-los com tudo o que precisam.

Mentalmente foi um teste para ti também?

Claro, claro. E fez-me crescer muito também.

Em dois anos nos EUA — um sem jogar, um a jogar — o que é que sabes sobre ti próprio que não sabias quando saíste do Porto?

Que cresci muito. Fisicamente, tecnicamente e mentalmente. Foi um teste, mas fez-me crescer.

Para terminar: o que é que sentes falta do Porto que não consegues substituir no Tennessee?

A comida. A francesinha, a comida da minha avó. É isso.

Quando regressas?

Dia 5 de Maio, mal posso esperar. E depois depende para onde eu for — se não tiver seleção, tenho de voltar para os EUA no final de Junho ou início de Julho, quando as equipas começam a treinar.

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