Ema Karim: “Este ano foi bom, mas posso fazer muito melhor”

Ricardo Brito Reis esteve à conversa com a promissora jovem atleta lusa, Ema Karim

Atletas
4 JUN 2026

Ema Karim chegou ao seu segundo ano em Hofstra University sem pré-época, no dia a seguir à eliminação de Portugal no primeiro Mundial sub-19 feminino da história do basquetebol português. Tinha 18 anos, vinha de uma primeira época em que jogara dez jogos com uma média de três minutos e meio, e os seus treinadores tinham-lhe entregado um papel com tudo o que precisava de melhorar. Decidiu não parar. Trabalhou o verão inteiro.

O resultado está nos números: de 0,5 pontos por jogo para 5,8, de três minutos para mais de vinte e um, de suplente residual a titular e peça-chave numa das maiores surpresas da conferência americana CAA, onde Hofstra, décima cabeça de série num torneio de treze equipas, chegou à final com Ema Karim a ser a figura mais influente dos jogos decisivos. A extremo portuguesa falou em entrevista exclusiva à FPB sobre o verão que mudou tudo, o trajeto Cinderela no torneio da CAA e o que espera desta geração, dentro e fora das quatro linhas.

No final da tua primeira época, os teus treinadores deram-te um papel com tudo o que tinhas de melhorar para a seguinte. O que é que estava nesse papel?

Falava de ball handling — tinha de melhorar muito —, da defesa, de mudar o pace, a velocidade dos meus pés, de ganhar força e músculo. E também da tomada de decisão no lançamento: saber quando lançar.

Como é que trabalhaste? Sozinha ou com alguém?

Tive a ajuda da Margarida Pereira. Íamos para o campo do CAR e ficávamos a lançar. Lancei muito com o meu irmão, jogámos um contra um, que me ajudou na decisão. Depois estive na seleção, que também me ajudou muito. E em agosto treinei com o Ricardo Moreno — ficámos a trabalhar muito o lançamento, o pull-up jumper —, o que ajudou muito a evoluir.

Foi o mesmo verão do Mundial sub-19. Como é que geriste essa transição? No primeiro ano jogas dez jogos com uma utilização residual e de repente és chamada a ter um papel importante na seleção.

Foi um bocado difícil. De repente a equipa precisar de mim, ter um papel importante. Mas como eu passei o ano inteiro a querer jogar, a querer entrar, a ter esses minutos, a estar dentro do campo — acho que isso só me alimentou. Quando cheguei ao Mundial ou aos treinos da seleção, tinha essa fome de estar no campo, de querer jogar, de defender, de estar com as minhas colegas.

Voltaste a Hofstra no dia seguinte à eliminação de Portugal no Mundial. Não houve férias. Sentias-te preparada? Os pontos da lista de melhorias estavam feitos?

Sentia-me confiante. Apesar das minhas colegas terem estado a treinar durante um mês, eu tinha estado a jogar contra as melhores jogadoras da Europa, sempre em alta competição. Cheguei muito confiante e acho que foi isso que me ajudou muito a poder jogar mais este ano. Estava bem fisicamente, estava bem mentalmente. Entrei a matar.

Por não teres parado no verão, sentiste alguma quebra física durante a época?

Não. Fiz uma pausa de uma semana, mas tive muita ajuda na fisioterapia todos os dias, com os meus tornozelos. Muitos ice pads também. Acho que estive bem fisicamente.

Foi-te dito diretamente que ias ser titular, ou que ias ter um papel mais importante?

Não, eles não estavam muito à espera de que eu entrasse assim tão bem. Acho que ficaram um bocado chocados, porque sempre tentaram tirar mais de mim — tinham expectativas, queriam que eu falasse mais, que é uma coisa muito importante porque eu sou um bocado tímida. E eu como entrei bem, eles foram falando comigo: “Podes não entrar, mas és a primeira a sair do banco. Estás a ajudar muito, continua a fazer as coisas pequeninas — o ressalto, a defesa — e vais continuar a ganhar um papel.” Depois comecei a ser titular e eles disseram que estava a fazer um bom trabalho, que estava a ajudar a equipa nesses detalhes.

Um ano depois, passas de três minutos por jogo para mais de 21. Tornaste-te também uma grande ameaça no perímetro — 34% de três pontos, mais de cem tentativas na época. O trabalho do verão resultou nisso também?

Sim, claramente. Treinei muito com os meus treinadores adjuntos. Tivemos muito trabalho na offseason, treinos extra — mais de trinta minutos depois dos treinos todos os dias. Isso ajudou muito na confiança. No jogo é tão rápido que às vezes nem pensas no que estás a fazer, mas como treinei tanto, isso deu-me muito mais confiança no lançamento.

Acabas a época com 33 jogos, mais vezes titular do que a sair do banco, 21 minutos por jogo, seis pontos, 34% de três. Sentes que estás mais perto daquilo que queres ser? Qual é o próximo passo?

Sim, estou mais perto. Os treinadores têm mais confiança em mim, estão a puxar um papel mais de capitã para o ano que vem. Eu só quero ter um papel mais de líder na equipa — que as pessoas confiem em mim, que as mais velhas olhem para o meu trabalho e que se sintam inspiradas. Que vejam que se pode sair do banco para ser titular. Mas é continuar a fazer os detalhes. Eu não sou muito uma pessoa que marca os pontos todos da equipa. Gosto mais dos pormenores — passar a bola, roubar a bola, a transição, o que faz fluir o ataque. Para mim a estatística não é assim muito. Mas sim, quero ser uma líder no próximo ano.

Uma líder implica também seres vocal em campo. Estás preparada para esse passo?

Sim. Os treinadores têm estado a puxar muito isso neste pós-época: “Ema, tens de ser tu a dizer isto. Ema, o que é que é para fazer. Ema, tu dizes quando correr.” Tem sido um bocado complicado, mas sei que eles querem o melhor para mim, então estou a trabalhar nisso.

No final da época, viveram uma verdadeira história de Cinderela. Entraram no torneio da CAA como décima cabeça de série num torneio de treze. Havia expectativa dentro do balneário de irem tão longe?

Pode parecer um bocado maluco, mas apesar de termos os resultados que tivemos, se forem ver os nossos jogos foi sempre equilibrado. Às vezes perdíamos no último segundo, num turnover, num buzzer beater deles. As equipas sabiam que não éramos fracas, sabiam que éramos difíceis de confrontar. Então fomos para o torneio como se o resto da época não tivesse acontecido. Começava do zero. Não interessava o que tínhamos sido. Nós queríamos ir à final, queríamos ganhar.

Na segunda ronda eliminam Towson por um ponto. Depois vêm dois jogos que vão ficar para sempre na tua memória: eliminam o segundo classificado, Campbell, quando marcas aquele triplo a um minuto e meio do fim, do meio da rua. E depois na meia-final marcas 17 pontos contra Drexel, que era o terceiro classificado. Quais são as memórias principais desse torneio?

É mais a equipa. Este ano adorei mesmo a minha equipa — são umas irmãs para mim. Mesmo nos momentos maus, quando perdíamos, quando estávamos naquele losing streak, lembro-me de estar chateada porque fiz um turnover estúpido num jogo e as minhas colegas não me deixaram ir para o meu quarto. Disseram: “Não, vamos ver um filme todas. Não te vamos deixar sozinha com esses pensamentos que eu sei que estás a ter.” E no jogo de Towson, quando a Emma Von Essen marcou aquele triplo, estávamos todas no banco a chorar. Foi mesmo uma Cinderella run.

Mas para ti também — o triplo muito longo frente ao Campbell, os 17 pontos contra o Drexel. Tu que dizes que não ligas à estatística, que preferes os intangíveis. De repente fazes o teu recorde pessoal na meia-final contra o terceiro classificado. Isso dá-te uma confiança extra.

Sim, sim.

Chegam à final e perdem frente a Charleston. Ainda assim, foste a melhor marcadora de Hofstra. O programa nunca tinha chegado à final desde 2015, partindo do décimo seed. Tiveram noção, no fim, da grandeza do trajeto e da história que tinham deixado no programa?

Sim, definitivamente. A nossa treinadora estava muito feliz com o processo. Mas depois do jogo estávamos todas um bocado tristes, porque sabíamos que era possível ganhar aquele jogo — Charleston tinha sido o nosso primeiro jogo da conferência e eu lembro que estávamos a ganhar o jogo inteiro e fomos perder no último minuto. Então seria um grande comeback. Foi um bocado triste porque sabíamos que podíamos ter ganho, mas sabíamos que tínhamos feito um recorde na escola e que isso ia ficar marcado.

Entrar no transfer portal nunca foi uma hipótese?

Não. É muito uma família aqui. Os treinadores deram-me uma oportunidade grande este ano. Posso evoluir no próximo ano, ter um papel mais de líder. Tenho muito para aprender ainda. Sinto que este ano foi bom como um começo, mas posso fazer muito melhor. Ficar era a única opção.

Uma das pessoas com quem partilhaste o campo no Mundial foi a Clara Silva, que também esteve muito bem este ano em TCU. Falam regularmente?

Temos um grupo do Mundial, da seleção. Ficamos a falar às vezes, a partilhar publicações. Depois temos outro grupo para as pessoas que estão nos Estados Unidos. Não é assim muitas vezes que falamos, mas de vez em quando fazemos uma chamada ou mandamos uns TikToks. Estou muito feliz por ela. Ela está a jogar muito bem também.

Fala-se pouco de basquetebol em Portugal, mas o Mundial foi muito falado, com muito destaque para a Clara, com aquele jogo fantástico dos 37 pontos. Mas tu também fizeste coisas muito boas: contra Israel marcas seis triplos e 18 pontos, contra uma equipa considerada favorita. Que memórias é que guardas desse jogo?

Lembro-me que tínhamos aquele rancor, porque no ano anterior perdemos contra Israel. Por isso estávamos todas com um bocado de raiva, queríamos mesmo ganhar. E os lançamentos estavam a entrar e elas estavam a passar a bola. Depois tínhamos a Clara, que é um ponto forte interior — a defesa delas ia mais para dentro e depois nós temos atiradores lá fora: a (Rita) Nazário, a Gabi (Gabriela Fernandes), eu, a Magda (Freire), a Marta Rodrigues. Não tinham muito o que fazer.

Estás a estudar Bioengenharia. Como é que isso está a correr?

Está a correr bem. Está a ser difícil, definitivamente. Os laboratórios, as aulas à noite, os estudos, mas acho que vale a pena. E esta escola é muito boa para este curso. É mais fácil que em Portugal, tenho a certeza disso. Mas o meu curso é exigente — a Rita Nazário está em Engenharia Mecânica e às vezes vamos falando sobre aulas que são complicadas. Os professores ajudam imenso, conciliam muito bem as aulas com os treinos e os jogos. Mas comparando com as minhas colegas de equipa que estão em Marketing, tenho mais horas de estudo e laboratórios.

Hofstra fica em Long Island, mesmo ao lado de Nova Iorque. Já foste à cidade?

Já, adoro. Não é como nos filmes, mas agora que vivo aqui já não gosto muito de ir onde estão os turistas — nós vamos a Soho, a Brooklyn, que é mais onde as pessoas vivem e é muito mais bonito. Basta apanhar um comboio de quinze minutos e estamos na cidade. É perfeito. Ficamos o dia inteiro no shopping, a tirar fotos, a passear, a ir ao jardim. Gosto imenso.

Tu que te descreves como introvertida, como é estar na Big Apple?

Nunca é aborrecido. Há sempre alguma coisa a acontecer na cidade. Lembro que no ano passado eu e as minhas amigas fomos à cidade e de repente estava a acontecer uma luta gigante — estava um ringue no meio da rua, boxers a lutar, estava cheio. Mas este ano já não sou assim tão introvertida com as minhas colegas. Já estou normal. (risos)

Hofstra perde várias seniores este ano — a Emma Von Essen, a Chloe Sterling. Ainda tens dois anos de elegibilidade. Qual é o objetivo concreto para a próxima época?

O meu objetivo principal é ganhar o campeonato — seja a regular season ou o torneio da conferência. Tive um cheirinho no ano passado e agora estou viciada. Não consigo aceitar perder. Mas o que eu quero todos os dias, em todos os treinos, é dar o máximo que puder. Não quero sair de um treino a pensar que não dei tudo. Agora já não vou ter as mais velhas a puxar por mim — a Chloe Sterling, por exemplo, é uma das minhas melhores amigas aqui e ajudou-me imenso este ano. Ficava a treinar comigo um contra um no pós-época porque sabe o meu valor e sabe que vou ser importante para o ano que vem. Como não vou ter ninguém para me ajudar, vou ter de ser eu. Vai ser difícil mentalmente, mas é isso que eu tenho de fazer se quero crescer.

Vais ter de ser mentora das freshman que chegam. Estás preparada para isso?

Desde que elas queiram trabalhar e ganhar, sim. Eu vou dar tudo por elas se elas derem tudo por mim também.

Como são as instalações de Hofstra?

São incríveis. Temos o pavilhão principal, onde podes ir sempre, e o pavilhão onde treinamos, com máquinas de lançamento — se precisares de ir lançar sozinha é muito mais fácil. O que eu gosto muito é que tens acesso 24 horas por dia. Eu acabo o laboratório às nove da noite, não quero ir para casa — posso ir lançar e ficar até à meia-noite, à uma da manhã, sozinha, com a minha música, sem ninguém me chatear.

E isso acontece?

Acontece. O basquetebol ajuda muito com o stress. E com a Chloe — íamos lançar à noite, púnhamos a música. Depois tens o ginásio, o PT, a fisioterapia — são espetaculares, estão sempre prontos para ajudar.

Sentes que este vai ser o ano da tua afirmação definitiva?

Espero que sim. Sinto que este ano foi muito incrível — esta equipa vai ficar na minha memória para sempre —, mas espero que no próximo possamos fazer ainda melhor.

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