Partilha, reflexão e formação marcaram o primeiro dia do Clinic Cantanhede 2026

Amanhã o Clinic continua na parte da manhã

Treinadores
27 JUN 2026

A 23.ª edição do Clinic Internacional de Cantanhede 2026 arrancou este sábado, 27 de junho, com um primeiro dia marcado pela partilha de conhecimento, pela reflexão sobre o desenvolvimento dos jogadores e pela presença de centenas de treinadores reunidos em torno da formação no basquetebol.

Reconhecido como o maior clinic de formação de basquetebol do país, o evento voltou a afirmar-se como um espaço privilegiado de aprendizagem, debate e contacto entre treinadores de diferentes contextos, gerações e realidades competitivas. Ao longo do dia, Fernan Varela, José Araújo, Pepe Vázquez, Ricardo Vasconcelos e Cristina Leite conduziram sessões centradas em diferentes dimensões do jogo, sempre com uma preocupação comum: ajudar a formar melhores treinadores e, por consequência, melhores jogadores e jogadoras.

O programa abriu com Fernan Varela, que apresentou a sessão “Do Ataque à Defesa – Começar a Defender”, contando, tal como os restantes preletores do dia à exceção de Cristina Leite, com a participação da Seleção Nacional Sub15 Feminina na demonstração dos exercícios. Na sua primeira presença em Portugal, o técnico destacou a importância de juntar tantos treinadores no mesmo espaço.

“Penso que é incrível conseguir juntar tantos treinadores no mesmo local. Mais do que as palestras, o mais importante é estarem juntos, poderem criar ligações e partilhar experiências”, afirmou Fernan Varela, sublinhando ainda o papel da Federação Portuguesa de Basquetebol e da Escola Nacional de Basquetebol na criação deste momento anual de formação.

Questionado sobre o trabalho com jogadores jovens, Fernan Varela defendeu uma abordagem individualizada, lembrando que “cada jogador é diferente” e que as dificuldades variam entre atletas. “Alguns podem ter mais dificuldades em compreender o espaçamento ou em jogar sem bola, outros no lançamento. Há certas coisas, como o carácter, que são difíceis de ensinar”, explicou.

Seguiu-se José Araújo, recentemente anunciado como novo Selecionador Nacional feminino, com a sessão “Chegar a Jogar com Diferentes Espaços”. Apesar do novo cargo, o treinador garantiu que a presença no Clinic manteve o significado inicialmente previsto, num contexto focado sobretudo na partilha de ideias com outros treinadores.

O técnico abordou também o momento histórico vivido pela Seleção Nacional feminina, depois da presença no EuroBasket, e o impacto que esse feito pode ter na formação. “Um ponto alto, uma coisa histórica, é sempre uma montra muito grande para a modalidade. Esta equipa, ainda por cima, é uma equipa divertida, que dá gosto ver jogar, pela forma como se empenha e trabalha”, referiu.

Para José Araújo, este deve ser um momento capaz de gerar crescimento: “Acho que deveria ser importante para haver mais atletas a quererem jogar basquetebol, para a modalidade crescer, para haver mais inscrições e mais entusiasmo nos clubes”.

Durante a sua intervenção, o Selecionador Nacional feminino procurou transmitir mais do que uma sequência de exercícios. “Hoje era muito a forma de pensar. A forma como vemos o jogo internacional para as nossas atletas. Era mais para dar uma ideia daquilo que nos vai na cabeça e daquilo que os jogadores precisam de saber e controlar, do ponto de vista técnico e tático, para conseguirem executar”, acrescentou.

Ainda durante a manhã, Pepe Vázquez conduziu a sessão “Drills Defensivos para Construir uma Defesa Coletiva”, também com a Seleção Nacional Sub15 Feminina em campo. O treinador espanhol mostrou-se muito satisfeito com a primeira experiência em Portugal e com o ambiente encontrado em Cantanhede.

“Estou muito contente por participar. Fiquei muito surpreendido, de forma positiva, com a quantidade de treinadores que vieram, com o ambiente que se vive e com a participação que tem havido”, afirmou Pepe Vázquez. “Não podia ter tido melhor estreia aqui em Portugal a dar um Clinic. Está tudo muito bem organizado e é um luxo poder estar perante tantos colegas de profissão.”

Sobre a preparação de uma sessão deste género, Pepe Vázquez explicou que procura juntar a demonstração prática à reflexão dos treinadores. “É um pouco das duas coisas. Primeiro, mostrar como faço, como corrijo e como estou em campo. Depois, também é importante fazer pensar os treinadores que estão a assistir, perceberem como podem melhorar o exercício. É um pouco 50-50”, resumiu.

Da parte da tarde, o programa dividiu-se entre dois workshops. Fernan Varela voltou a intervir, desta vez no Auditório do Centro Social e Paroquial de São Pedro, com o tema “Trabalho individual para desenvolvimento de jovens jogadores(as)”. Em simultâneo, Ricardo Vasconcelos esteve no Auditório da Biblioteca Municipal, onde apresentou “Subidas de escalão – um Bem ou um Mal Necessários?”.

Para Ricardo Vasconcelos, estar presente em Cantanhede tem um significado especial pela dimensão e história do evento. “Isto é um Clinic monstruoso, histórico. Já faz parte da história do basquetebol. Para mim, representa um orgulho enorme poder fazer parte de um momento destes”, afirmou.

O antigo Selecionador Nacional feminino realçou ainda a importância dos momentos formais e informais de partilha entre treinadores. “Com tantos treinadores de norte a sul de Portugal, ninguém consegue sair daqui mais pobre. É impossível. Isto é realmente algo bonito e bom”, destacou.

Na sua intervenção, Ricardo Vasconcelos alertou para os riscos de acelerar o percurso de jovens jogadores sem uma análise cuidada do indivíduo. “As decisões têm de ser tomadas em função do indivíduo e só do indivíduo”, defendeu. Para o treinador, uma subida de escalão mal decidida pode ter consequências diretas, como pressão excessiva e perda de autoestima, mas também efeitos indiretos no percurso de outros atletas. “Há consequências diretas e indiretas. O que eu queria era que as pessoas saíssem daqui a falar disso”, explicou.

Ricardo Vasconcelos deixou ainda uma mensagem mais ampla sobre a forma como os treinadores devem encarar momentos de formação como este: “Gostava que a malta saísse de todos os Clinics com a ideia de que temos de pensar em ideias e não em pessoas. Mais do que concordar ou discordar de alguém, o mais interessante é perceber se concordamos ou não com a ideia”.

O final da tarde contou com Cristina Leite, que apresentou a sessão “Minibasquete: Papel treinador no ensino do jogo por conceitos (Tomada de Decisão)”. Ao contrário dos restantes momentos do dia, a demonstração prática contou com uma equipa de minibasquete, num bloco dedicado à aprendizagem nas idades mais jovens.

A treinadora sublinhou a importância da partilha no desenvolvimento da modalidade. “Significa imenso. Acho que partilhar é das melhores coisas que o basquetebol tem. Poder vir aqui partilhar um bocadinho daquilo que tenho vivenciado ao longo dos anos, e tentar que pelo menos alguém saia daqui a pensar um pouco sobre isto, para mim é fantástico”, afirmou.

Cristina Leite defendeu ainda que o ensino do jogo por conceitos não limita a criatividade das crianças, antes a promove. “O ensino do jogo por conceitos serve, principalmente, para fomentar a criatividade. A ideia é que os miúdos, em função daquilo que o jogo lhes dá, possam ter a liberdade de decidir aquilo que vão fazer a seguir”, explicou.

Como conselho para jovens treinadores de minibásquete, deixou uma ideia simples, mas central: “Tentem separar aquilo que é o nosso conhecimento do jogo daquilo que é o não conhecimento do jogo por parte da criança. Isso vai ajudar-nos a perceber muita coisa”.

O primeiro dia terminou com nova intervenção de Pepe Vázquez, desta vez dedicada ao tema “A Importância do Passe na Criação de Vantagens no Ataque”, encerrando uma jornada intensa, construída em torno da defesa, da ocupação de espaços, do desenvolvimento individual, da tomada de decisão e da reflexão sobre o percurso dos atletas.

Entre sessões práticas, workshops e momentos de debate, o Clinic Cantanhede 2026 voltou a mostrar a força de um evento que, há 23 edições, junta treinadores em torno da mesma ideia: continuar a aprender para fazer crescer o basquetebol português.

O programa prossegue este domingo, 28 de junho, com novas sessões orientadas por André Silva, Dinis Amaral e Pepe Vázquez, antes da cerimónia de encerramento e fotografia final do Clinic.

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27 JUN 2026

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