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Entrevista a Rui Dias, presidente do Basket Clube de Gaia
Rui Dias, presidente do Basket Clube de Gaia (BCG), aborda com ambição a época de estreia do clube na 1.ª Divisão do basquetebol em cadeira de rodas (BCR) nacional e transmite a vontade de promover um paradigma mais competitivo na modalidade. Recorde-se que o emblema gaiense foi o único candidato ao Playoff de subida à 1.ª Divisão.
Quais as expectativas do BCG no seu ano de estreia na 1.ª Divisão?
As expectativas são de ficar entre os quatro primeiros lugares da competição. Para além disso, pretendemos alargar o número de jogadores e começar a formar novos atletas. A nossa maior presença em atividades de sensibilização e demonstração nas escolas e no Centro de Reabilitação do Norte, na época passada, reflete esse mesmo desejo.
Quais são os fatores diferenciadores deste projeto?
Somos o único clube da região do Grande Porto e contamos com atletas das Seleções Nacionais A e Sub22. Estamos a falar de uma população de 1,5 milhões de habitantes, onde só existe o nosso clube neste desporto adaptado!
Como surgiu a ideia de criar uma equipa de BCR (em resumo, o que te motivou a fazê-lo e a abordar-me)?
Sendo o Pedro Bártolo de tão perto de onde o clube nasceu e desenvolve a atividade, não poderíamos esperar outra coisa! O facto de o conhecer e ver o gosto que ele tem pela modalidade, em particular pelo desporto adaptado, foi uma questão de tempo para desenvolvermos este projeto. É uma paixão mútua pelo basquetebol nas diferentes variantes.
Que pretensões tem o BCG a longo prazo no BCR (pode falar do BCR e da ambição global no clube)?
Queremos, em geral, que o basquetebol cresça em Portugal. Pretendemos que os mais jovens atletas, e principalmente os pais, não vejam este desporto apenas como um “hobby”, ou algo para passar o tempo, mas como uma forma de vida, tal como se passa em muitos dos países por esse mundo fora, principalmente nos mais desenvolvidos. Este desporto em Portugal, infelizmente, por forças maiores, não é publicitado, pelo que é muito complicado que surjam muitos atletas com qualidade para que se possa competir ao mais alto nível europeu, e desta forma, atrair um maior interesse em todas as vertentes.
Quais os principais entraves à concretização do projeto do BCR?
O maior entrave é, sem dúvida, o equipamento, por forma a que os atletas estejam preparados para a alta competição. As cadeiras são bastante dispendiosas e sem isso a performance competitiva baixa consideravelmente.
“Em Linha” com Bruno Silva
Um convite para integrar o Basket Clube de Gaia colocou Bruno Silva na rota do BCR, em 2017. O entusiasmo e o profissionalismo, evidentes na “pequena” revolução operada no treino de condicionamento físico na modalidade, despertaram o interesse do Comité Nacional de BCR, e Bruno Silva acumula agora as funções de treinador-adjunto na formação gaiense e na Seleção A.
Que mensagem dirigias a um treinador hesitante em treinar BCR?
Foi difícil entrar no clube e sentir que os atletas conheciam melhor a modalidade do que eu, mas havia condições para crescer, e por isso a hesitação passou. Nunca iremos estar totalmente preparados para um desafio, caso contrário não seria um desafio. Faz sentido que ponderem bem os vossos passos, mas terão sempre de aceitar correr alguns riscos.
Quais os treinadores que exercem maior fascínio sobre ti e porquê?
Mike Frogley (Canadá), por todo o contributo na evolução do BCR. Os DVDs criados pela Universidade de Illinois foram uma enorme referência para mim. Obviamente que tenho de mencionar o Marco Galego e o Ricardo Vieira, com quem tenho aprendido bastante. Fora do BCR, o Phil Jackson. Existem treinadores que conseguem “criar algo mais” dentro dos grupos. Um verdadeiro espírito de união, confiança e entrega. Acredito numa abordagem holística do treino, e o Phil Jackson tinha-a. Não existem muitos treinadores que usem a meditação por exemplo, e esse crédito já foi dado ao Phill Jackson. Claramente um treinador que não percebe “apenas de basquetebol”, e valorizo muito isso.
Recorda-nos um momento caricato que tenhas vivido por treinar BCR.
Um atleta caiu após um contacto normal. Não havia risco, mas o árbitro interrompeu o jogo, parando assim o ataque da equipa adversária. O treinador reclamou e isso não foi bem aceite pelo público que começou a protestar, o que demonstra que ainda há muito desconhecimento da modalidade em Portugal. Noutra modalidade, ninguém ficaria chocado com o protesto do treinador. Revela que existe ainda um sentimento demasiado “protetor”, apenas porque se trata de desporto adaptado.
Quais as competências que consideras essenciais para ser um treinador de sucesso?
Difícil responder, porque não estou nesse patamar. Diria que é preciso ter bom conhecimento, capacidade de comunicação, de organização, de gestão (do treino e atletas) e de transmissão de conhecimentos. Não saltar etapas se estivermos na formação e saber definir objetivos! Também é muito importante saber ouvir e compreender os atletas, porque não os podemos obrigar a nada.
Em linha, a defesa que todos os treinadores querem, mas poucos conseguem. Qual a receita para lá chegar?
O BCR é muito exigente do ponto de vista coletivo e físico. Para se alcançar essa defesa é preciso ter níveis de comunicação e uma capacidade física muito acima da média. Basta um segundo de atraso no aviso de um bloqueio ou no impulso da cadeira que já poderá ser demasiado tarde para realizar as compensações/ajudas necessárias.
Em anexo podem consultar dados e curiosidades sobre Bruno Silva.
APD Braga, o primeiro (e único) campeão a norte
Os minhotos despertaram para as conquistas na época 2012/13, quando ergueram os troféus de campeão nacional e de vencedor da Taça de Portugal. Manuel Vieira, jogador e presidente da APD Braga, e Ricardo Vieira, treinador, narram as bases do êxito, antecâmara de um ciclo dominador, que perdura, no BCR nacional.
Após um ano atípico, sem competições de BCR em Portugal, a APD Braga surgia em força, uma vez maturado o processo cujo fito passava por vencer títulos. Em primeiro lugar, rumou a Braga a Taça de Portugal, e a jogar em “casa”, empurrada por uma das maiores enchentes da modalidade no país, a equipa festejou o campeonato. “Foram pelo menos 4 épocas a trabalhar para conseguir esse título, com um aperfeiçoamento de várias situações: passámos a 2 treinos semanais e a dispor de ginásio grátis”, descreve o treinador Ricardo Vieira, que salienta também o investimento pessoal e a aquisição de cadeiras. “Fiz inúmeros cursos internacionais, alguns quilómetros sozinho e sem dormir, para perceber mais e melhor. Além disso, tivemos cadeiras novas ao abrigo de um apoio importante, que veio demonstrar que tínhamos mão de obra, faltavam material e verbas para apoio aos atletas”.
Manuel Vieira, presidente e jogador da APD Braga, subscreve as premissas de sucesso elencadas pelo técnico, seu irmão, e frisa o impulso dado pelo pai, Carlos Vieira, na “criação de condições para a prática desportiva das pessoas com deficiência”, numa primeira fase voltada para “a integração”. Angariados novos parceiros, a APD Braga começaria “a marcar pontos no panorama desportivo nacional”, dinâmica na qual reconhece o papel de João Correia, atleta paralímpico e figura incansável nos bastidores, a quem presta um “reconhecimento especial”.
Do desejo à realidade distaram 20 anos, pois fora na época 1992/93 que a APD Braga, fundada em 1982, constituiria as secções de atletismo e BCR. A transição do pendor recreativo para uma orientação mais competitiva custaria momentos de tensão e exigiu firmeza. “Numa saída, uma dirigente pediu aos atletas dinheiro para ajudar a pagar o almoço e o meu pai disse que se assim fosse tirava as cadeiras todas da sua carrinha, deixava-as na estrada e trazia todos os atletas que pudesse. Foi para mim o ponto de viragem e perceção de que o atleta não pode pagar algo em que vai fazer o nome da instituição crescer”, sublinha Ricardo Vieira.
Atualmente, embora saliente o “muito trabalho a fazer”, o técnico considera que “a cidade e concelho estão mais atentos” ao desporto paralímpico, consequência indesmentível das múltiplas ações de sensibilização e demonstração de BCR realizadas pela APD Braga, com um impacto que ultrapassa até o território continental. “Um dos pontos altos foi a ida aos açores. Receberam-nos como verdadeiros atletas; outdoors luminosos a anunciar a nossa presença, nas escolas havia entusiasmo, pediram-nos autógrafos, fotos, queriam saber mais de nós. Para culminar, houve um jogo entre os atletas com direito a pavilhão cheio e entrevistas, assim como invasão do campo, onde as pessoas nos pediram camisolas, calções e até meias”.
Se uma longa espera antecedeu os primeiros títulos, desde então a APD Braga inaugurou uma verdadeira dinastia no BCR nacional, ao arrecadar todos as provas em disputa a partir da temporada 2015/16. E a motivação não se esfuma. “Todos os anos desportivos fazemos um reset, pois o passado já era”, explica Manuel Vieira, filosofia a que se juntam as ambições expressas por Ricardo Vieira em “colocar o máximo de atletas na Seleção Nacional” ou a “dar o salto” para o estrangeiro “e ser a melhor equipa de sempre do BCR em Portugal (com formação feita no clube)”.
“Man Out” a Miguel Reis
Miguel Reis iniciou-se há três anos no BCR, pelo Basket de Clube de Gaia, mas rapidamente despertou a cobiça de outras equipas e envergou a camisola da APD Paredes esta época. Versátil e com um reportório técnico interessante, ameaça distinguir-se como um dos principais jogadores de pontuação 4.0 em Portugal.
Data de nascimento: 19/01/2000
Ano de iniciação: 2017
Posição: Poste
Clube: BCG
Palmarés: Participação nos EPYG – Jogos Paralímpicos Europeus da Juventude – de 2019
Jogo da tua vida (e porquê): Sem dúvida alguma, nos Jogos da Juventude na Finlândia, contra a Irlanda. Fez-me crescer a nível pessoal e como jogador. Foi também o jogo que me fez perceber que o nível lá de fora não era inalcançável.
Chamam ao BCR a modalidade paralímpica rainha. Se tivesses que convencer alguém a ver ou praticar, como “vendias” o basquetebol em cadeira de rodas? Primeiramente, expressava a minha paixão pelo jogo e explicava no que consiste; em seguida só lhe diria que só jogando se percebe o porquê de ser a modalidade paralímpica rainha.
Qual ou quais os jogadores que exercem maior fascínio sobre ti?
Neste momento, há três jogadores em Portugal que exercem fascínio em mim. O primeiro, o Pedro Bártolo, pela sua riquíssima experiência e maneira de jogo; também não só por ser meu treinador, como mentor, que me aponta sempre para a direção certa; depois o Márcio Dias, uma grande fonte de inspiração, pois é aquele nível que quero alcançar e superar; por último, mas não menos importante, Hugo Lourenço, não só por ser um poste formidável, como também um dos jogadores mais criativos que já vi a jogar e isso é algo que eu gostava de ter no meu jogo.
Recorda-nos um momento caricato que tenhas vivido por jogar BCR.
Mais uma vez na Finlândia, nos Jogos Paralímpicos Europeus da Juventude, como praxe por ser a nossa primeira competição internacional, tivemos os nosso cabelos cortados com cortes engraçados e isso deu uma luz e uma união enorme ao grupo.
Qual o teu movimento, gesto ou momento do jogo favorito?
Seria o U-turn. Sendo bastante útil, é para mim um dos movimentos bases que todos os jogadores deveriam ter; gesto seria o lançamento, aquela sensação de a bola a deslizar pelos dedos e a entrar no cesto não há igual; e por último, o momento seria logo o início do jogo, onde ambas as equipas batalham para saber quem vai sair na frente na primeira parte do jogo e tudo está ainda em equilíbrio.
Qual o jogador a quem gostavas de fazer “Man Out”?
Sem dúvida alguma, seria ao Pedro Bártolo. No dia que o conseguir, terei superado o meu (eu) jogador atual.
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O “Man Out” é essencial no BCR. Na elite – mas não só -, todas as equipas adotam esta estratégia que consiste, após a recuperação da posse de bola, em reter um adversário com um, ou idealmente mais jogadores, no seu reduto ofensivo de forma a atacar em superioridade numérica. O espaço ocupado pelas cadeiras torna uma missão árdua recuperar a posição perdida, de modo que o “Man Out” é uma tónica constante no jogo de BCR, privilegiando-se como alvos, claro, os elementos mais lentos da equipa adversária.
Jogadores marcantes #8: Eduardo Gomes
Paradigma de longevidade e fair-play, aos 53 anos, Eduardo Gomes continua a fazer a diferença na tetracampeã nacional APD Braga, fruto de uma apetência quase sem paralelo para marcar, de qualquer lado. Detentor de 16 troféus pelo emblema minhoto, renova a cada ano o entusiasmo pelo BCR, que só deixará quando não puder mais.
O passado desportivo, resumido às funções de treinador-adjunto nas camadas jovens de uma equipa de futebol, não pressagiava os êxitos que se sucederiam. Eduardo Gomes (4.0) começou a praticar BCR há 22 anos, “através de Rafael Azevedo”, seu futuro colega e o primeiro contacto bastou. “Nem fui equipado. Apresentei-me lá e o Ricardo (Vieira) pôs-me logo numa cadeira. Fiquei apaixonado. Pensei: “Olha que maravilha”. A partir daí, nunca mais falhei um treino. Amo este desporto”, afirma a perder o fôlego.
De imediato, o fascínio produziu um compromisso ao nível dos melhores, espelhado na dedicação e no olhar aguçado. “Via os outros lançar e comecei a praticar sozinho, em casa, sem cesto, só a fazer o gesto”, resolução com frutos comprovados. O lançamento, virtude que consensualmente lhe reconhecem, aprimorou a cada treino, pela recriação constante da atmosfera do jogo. “Faço cada lançamento como se fosse no último segundo. Digo para mim “Estamos a perder por um” e é com esse lançamento que vamos passar para a frente”.
Uma ida a Vigo acrescentou-lhe soluções de concretização, perante a eficácia à tabela de um jogador do conjunto local, tal como o regresso de Márcio Dias (4.5) aos minhotos, após experiência em Espanha, pelo Servigest Burgos. “Jogava sempre do lado direito. Quando o Márcio voltou à equipa, perguntou se não me importava de trocar. Tive que me adaptar, e entretanto, comecei a lançar de todos os lados”, explica o veterano. O mérito da evolução atribui também a Carlos Vieira, fundador da APD Braga, e Ricardo Vieira, seu técnico atual. “Foram eles que me incentivaram”, sublinha, a par dos colegas, a quem louva “o apoio espetacular”. Para o treinador da APD Braga, Eduardo “tem uma vivacidade no jogo e intensidade que “envergonha” alguns novos atletas e até de Seleção Nacional”, dispara, caraterísticas que ajudam a compreender o impacto que mantém no conjunto tetracampeão nacional.
Há, porém, uma mágoa que não se apaga. “Sabes qual é o meu maior desgosto, a minha maior tristeza? Nunca vestir a camisola da Seleção”, confessa, apesar de aceitar a ausência das escolhas no passado. “Posso lançar bem, mas os outros têm velocidade”. Da mesma forma, Ricardo Vieira conjetura a disponibilidade de vários atletas da pontuação do seu pupilo, com qualidade, como atenuante para não constar nas convocatórias, mas frisa a injustiça. “Mais não fosse pelo prémio do que tem dado, e acredito ainda tem para dar, merecia ser reconhecido. Gostava de o ter visto mais em estágios, se fosse Sub22 garantidamente ia”, afiança em tom de brincadeira o selecionador da categoria.
Dissabores à parte, o encanto de Eduardo Gomes pela modalidade não parece afrouxar. “O que eu quero é jogar”.
Ricardo Vieira, Selecionador Nacional Sub22 e Treinador da APD Braga
O “Dado” é um caso a estudar pela ciência, pois quanto mais velho, mais vontade tem em crescer como jogador. Como ser humano, é um exemplo com todos, colegas de equipa e adversários. Não conheço um jogador ou agente desportivo (árbitros incluídos) que tenham algo a apontar-lhe, pelo contrário. As inúmeras vezes que já me aborreci com ele, em relação a parar uma jogada para ajudar um adversário ou desistir da mesma por fair-play, fizeram-me entender que não consigo mudar isso, está no ADN dele. É um prazer tê-lo na equipa, espero que se mantenha mais alguns anos connosco, pois poderá ser ou vir a ser o jogador com mais longevidade no BCR e com qualidade, pois em termos de longevidade temos já alguns exemplos, mas em termos de qualidade, como o “Dado” é difícil. Basta ver que tem feito parte do 5 inicial de uma equipa tetracampeã nacional e isso quer dizer alguma coisa, não?”
“Man Out” a Christophe da Silva
Christophe da Silva descobriu o basquetebol em cadeira de rodas em 2009, mas só chegaria ao “radar” da Seleção Nacional a partir de finais de 2016. Com o traquejo adquirido ao serviço do CS Meaux, pelo qual se sagrou campeão francês em 2017, o extremo viu recompensado o afinco e o caráter coletivo do seu jogo com duas participações em Campeonatos da Europa.
Data de nascimento: 06/11/1982
Ano de iniciação: 2009
Posição: extremo/base
Clube: CS MEAUX (França – Nationale A)
Palmarés: Campeão de França – 2017
Jogo da tua vida (e porquê): CS Meaux 64-68 Bilbao BSR– Andre Vergauwen 2017 (estatística aqui) Perdemos por pouco contra uma grande equipa. Foi um jogo de alto nível e muito intenso.
Chamam ao BCR a modalidade paralímpica rainha. Se tivesses que convencer alguém a ver ou praticar, como o “vendias”?
Antes do meu acidente, não conhecia este desporto. Desde que pratico, todas as pessoas que o conheceram, adotaram-no de imediato e começaram a segui-lo. É um desporto aberto a toda gente (em vários países, a participação está aberta a pessoas sem deficiência. Em Portugal, essa circunstância está restrita à 2.ª Divisão), não é preciso ter uma deficiência para praticar, e é um ótimo momento de partilha. As regras são semelhantes à versão convencional e o espetáculo é igualmente impressionante. A melhor maneira de ficar fã é ver pelo menos uma partida ou sentar-se numa cadeira. A partir daí, só podemos amar a modalidade.
Qual ou quais os jogadores que exercem maior fascínio sobre ti?
Tive a chance de jogar com grandes jogadores e contra os melhores. É difícil nomear alguém em particular, mas os que realmente me ajudaram a crescer nesta modalidade são Otias Pliska, Audrey Cayol, Samir Goutali e Mario Farasman.
Recorda-nos um momento caricato que tenhas vivido por jogar BCR.
Durante uma sessão de consciencialização sobre a prática do BCR, com professores de Educação Física e treinadores de clubes do desporto convencional, quando testaram a modalidade, tiveram a impressão de inverter os papéis. Eles tornaram-se as pessoas com deficiência e eu a pessoa dita “normal”.
Qual o teu movimento, gesto ou momento do jogo favorito?
Gosto de castigar a defesa adversária, fazendo o “comboio”*, para que o jogador que me segue possa marcar à vontade.
Qual o jogador a quem gostavas de fazer “Man Out”?
Gostava de fazer “Man Out” ao Márcio Dias, capitão da nossa Seleção e jogador com muita experiência.
* Comboio ou “seal” – movimentação caraterística do BCR, geralmente materializada pelo jogador de baixa pontuação e/ou estatura, que prescinde de atacar uma vantagem numérica pelos cânones habituais para efetuar um bloqueio em movimento e permitir que o seu colega o acompanhe nas costas, alcançando deste modo uma posição próxima do cesto.
Entrevista a Augusto Pinto
Augusto Pinto, presidente do Comité Nacional de Basquetebol em Cadeira de Rodas (CNBCR), analisa o presente e projeta a época 2020/21 em entrevista.
A pandemia terá consequências económicas danosas para os clubes, em particular para os que assentam numa estrutura mais frágil, onde se enquadra o BCR. Que resoluções saíram da reunião de clubes celebrada a 6 de junho?
Pela primeira vez, em muitos anos, estiveram presentes todos os clubes de BCR. Existe uma grande interrogação sobre o futuro face à nova realidade que a pandemia trouxe. Outra preocupação evidente recai nas incertezas sobre as capacitações financeiras, pois a grande maioria depende dos apoios das autarquias, seja nas instalações desportivas, seja na logística de transporte. Foi consensual que temos de pensar de forma mais racional o quadro de competições. Neste sentido, os calendários da 1.ª e 2.ª Divisão serão realizados em datas não coincidentes e ficaram definidas as regras dos atletas que integram as equipas B. Uma alteração importante foi a disputa da fase final da 1.ª Divisão passar a ser realizada em sistema de poule entre as 4 equipas melhor classificadas da fase regular, num fim de semana.
De que forma irá o CNBCR prestar apoio aos clubes neste momento difícil?
A primeira medida é consignar a cada clube uma verba equivalente ao valor da terceira prestação da taxa de participação da época transata; determinámos manter a isenção das taxas de inscrição de atletas, técnicos e enquadramento humano; e a FPB continuará a suportar a maior fatia dos custos da arbitragem. Além disso, ficará a cargo da Federação garantir, na próxima época, a viagem de avião das duas equipas que irão disputar jogos na região autónoma da Madeira. Está ainda em fase de estudo a possibilidade de criação de verba de estímulo aos clubes, tendo em conta a sua dinâmica, cujas regras esperamos ter definidas até final de setembro.
É expectável o aparecimento de novas equipas na próxima época?
Sabemos como é difícil a construção de uma equipa de BCR, nos aspetos técnico e logístico. Vamos manter o foco na dinâmica de aparecimento de novos clubes, aprofundando contactos anteriores já estabelecidos e realizando outros.
Na antecâmara de um ano tão importante para a Seleção A, que irá tentar a subida à Divisão B, confia num calendário suficientemente estimulante na preparação?
No mínimo, vamos proporcionar as mesmas condições do ano de 2019, e claro, ir mais além, avaliando a cada momento as condições para realizar mais jogos ou torneios de preparação. Para superar entraves maiores, equacionamos a realização desses jogos de preparação em Portugal. A construção do calendário de competições para a próxima época vai ter em conta essa mesma atitude.
Na época dada por terminada, o CNBCR visou proporcionar um número de estágios elevado à Seleção Sub22. Esta aposta era um prenúncio de uma eventual estreia em europeus da categoria? Mantém-se intacta essa vontade e com uma data concreta?
A Seleção de Sub22 está ainda num estádio de construção que queremos consolidar na proxima época. Se os calendários internacionais não tiverem muitas alterações, prevemos a participação em competição europeias no ano de 2022. O trabalho que este grupo tem desenvolvido tem sido espetacular. Mesmo neste período de confinamento, o espírito de dedicação e sacrifício é de enaltecer (mas é desta têmpera que se criam bons atletas), o que nos leva a encurtar as reais expectativas de participação em competições internacionais.
“Não pares em casa”
Bruno Silva, adjunto da Seleção Nacional de BCR e do Basket Clube de Gaia, dedica o treino desta semana, mais global, à mudança de direção, potência aeróbia e força.
Segue-se o vídeo, sendo que em anexo podem ler todas as indicações.
Na época 2008/09, a APD Leiria sagrava-se campeã nacional pela primeira vez
O ansiado título de campeão nacional de basquetebol em cadeira de rodas da APD Leiria chegou acrescido do mérito de impedir um sexto triunfo consecutivo da APD Sintra, e de ser o primeiro erguido por uma equipa fora da Grande Lisboa. Marco Francisco e o histórico atleta/dirigente Manuel Sousa proveem o feito de memórias.
A estreia nas conquistas acontecera na temporada 2007/08, com a vitória na Taça de Portugal, prenúncio para o que viria, apesar de o próprio título de campeão ter ficado a um palmo de distância em ocasiões anteriores. “Já tínhamos demonstrado que tínhamos equipa e éramos os melhores. Acontece que tínhamos um plantel muito jovem, muito aguerrido, com excelentes jogadores e ambiciosos, mas faltava experiência, algo que a APD Sintra tinha de sobra”, admite Marco Francisco, virtuoso poste dos leirienses, que revisita uma das oportunidades goradas mais dolorosas. “Estivemos uma vez a ganhar 2-0 no playoff da final, disputada à melhor de cinco jogos, e fomos perder 3-2”.
A amargura das tentativas falhadas pesou no compromisso em dobro que pautou a conduta dos atletas, na altura do feito, onde sobressaía a paleta de internacionais, ou em vias de se converterem, composta por Marco Francisco (4.5), Valter Mendes (4.0), Aníbal Costa (4.0) e Manuel Sousa (1.0). “Tinha de ser desta. O Playoff estava empatado 2-2, mas conseguimos uma grande vitória por 68-55 no quinto jogo”, lembra. Para Manuel Sousa, “na “negra” tem outro sabor”, além do primeiro título encerrar “uma sensação de incentivo geral”, que conduz à repetição de êxitos, um alvitre certeiro, pois desde então a APD Leiria somou ao palmarés dois Campeonatos e 1 Taça de Portugal.
Entre as “memórias fantásticas de um título muito sofrido, justo e desejado”, Marco Francisco louva o trabalho conjunto de todos os atletas e direção, “que sempre procurou dar as melhores condições de treino e material”, sobraçado pelas autarquias de Leiria e Marinha Grande, sem esquecer os adeptos, que frisa o camisola #5, “nunca faltaram para apoiar a equipa”.
Convidado a nomear os rostos do sucesso alcançado dentro de campo, “pergunta complicada e injusta”, Marco enfatiza o ambiente familiar no seio da equipa e que “cada atleta deu e dá o melhor de si, sem nenhumcontrapartida”, mas concede duas menções especiais. “É incontornável referir o nosso vice-presidente Manuel Sousa, que continua a exceder-se todos os dias em prol da APD Leiria. Não podia ainda deixar de sublinhar o trabalho fantástico que o nosso treinador/jogador Martinho Santos fez para atingirmos o primeiro título”.
No palanque dos notáveis, Manuel Sousa reconhece a importância do seu contributo, “um jogador de pontuação baixa, que nos muitos anos de seleção jogou sempre os 40 minutos”, e presta tributo a Marco Francisco e Cláudio Batista, referência da APD Leiria durante um longo período, transferido uma época antes para o Amivel Velez-Malaga, emblema da poderosa 1.ª Liga espanhola.
Para a APD Leiria voltar ao topo do BCR nacional, o emblemático dirigente, ainda no ativo como jogador, aponta a necessidade de combater a “falta de liderança e unidade”, porque a valia dos atletas não está em causa. Em sintonia com estas palavras, Marco Francisco acredita num futuro de novos triunfos. “Resta-nos agora trabalhar mais do que os outros, coletiva e individualmente, que os resultados vão aparecer”.
Portugueses lá fora: Hélder da Silva vai disputar o principal escalão espanhol
O Servigest Burgos, formação de Hélder da Silva, veterano base desde 1998, aproveitou a renúncia do Basketmi Ferrol, de Pedro Bártolo e Luís Domingos, para carimbar o regresso à División de Honor, sete anos depois.
O Servigest Burgos, de Hélder da Silva (2.0), aceitou, na passada sexta-feira, o repto da FEDDF (Federação Espanhola de Desporto para Pessoas com Deficiência Motora) para ocupar a vaga deixada livre pelo Basketmi Ferrol, emblema dos internacionais Pedro Bártolo (2.5) e Luís Domingos (2.5), que obteve um meritório segundo posto, na fase regular, precisamente um lugar à frente do rival de Castela e Leão.
Os galegos abdicaram da promoção a 31 de maio, data imposta pela Federação Espanhola como limite para a comunicação de intenções, fator que, expôs o presidente Alvaro Illobre, precipitou a decisão tomada, “pois em pleno Estado de Emergência torna-se impossível circular livremente na procura de patrocinadores e realizar reuniões com os responsáveis das instituições públicas”. Além da dificuldade em angariar apoios em tão curto espaço de tempo, o clube vive uma situação económica difícil, expressa na necessidade de “contrair um empréstimo com ABANCA” para suprir os gastos da época agora terminada, bem como da segunda metade de 2018/19.
Face ao cenário exposto, o Servigest Burgos anunciou o desejo de se juntar ao Getafe BSR na subida à liga mais competitiva do BCR mundial, apesar da pandemia da Covid-19 ameaçar esse estatuto, assente, em larga escala, na presença dos melhores intérpretes estrangeiros do jogo. Hélder da Silva, capitão e símbolo da equipa, irá viver, assim, a sua sétima experiência no patamar mais alto do BCR espanhol, direito alcançado também na época 2015/16, fruto da conquista da 2.ª Divisão, mas, à data, por motivos similares aos elencados pelo Basketmi Ferrol, os burgaleses não puderam consumar a disputa da División de Honor.
“Não pares em casa”
Bruno Silva, adjunto da Seleção Nacional de BCR e do Basket Clube de Gaia, dedica o treino desta semana à potência aeróbia e mecânica de lançamento.
Segue-se o vídeo, sendo que em anexo podem ler todas as indicações.
Em 2007, Portugal erguia o seu único título e espantava a Europa
Em Dublin, Irlanda, a Seleção Nacional de basquetebol em cadeira de rodas (BCR), orientada pelo espanhol José María Cristo, conquistou o Europeu C e carimbou a primeira subida ao segundo escalão continental. Nos eleitos, estavam Paulo Soeiro e Hugo Maia, um dos resistentes e atual subcapitão da Seleção, que rememoram o maior êxito do BCR português.
Gorada a primeira tentativa de chegar à Divisão B do BCR europeu – desde que este incorporara a Divisão C -, Portugal viveu uma profunda transformação estrutural que lhe permitiria não só o alcance da subida, como de erguer, com uma boa dose de surpresa, o seu primeiro e único troféu.
Da comitiva ganhadora, subsistem nos quadros da seleção Henrique Sousa e Hugo Maia, subcapitão, que alude à “preponderância marcante” do técnico espanhol, José María Cristo, e do “trabalho conjunto”, onde emerge o presidente da extinta ANDDEMOT (Associação Nacional de Desporto para Deficientes Motores) – dirigente e ex-jogador da APD Sintra –, Victor Sousa. “Deu-se uma reviravolta, porque houve a preocupação de fortalecer a estrutura, ao equipar com cadeiras os jogadores convocáveis”, aposta que constatou acertada na primeira pessoa. “É à conta desse investimento que eu desponto. A cadeira deu-me tudo”, refere o capitão do GDD Alcoitão.
Paulo Soeiro percute igualmente na importância das ações desencadeadas por Victor Sousa, diligente nas palavras de apelo ao compromisso. “Pediu que assumíssemos a responsabilidade de representar Portugal e contou alguns episódios passados que não queria ver repetidos”, consciencialização que contribuiu para uma seriedade competitiva com os frutos conhecidos. Na origem da façanha, culminada com triunfo ante a Lituânia por 69-60, Paulo Soeiro, que prossegue a sua carreira no Lux Rollers – 3º escalão germânico -, convoca ainda como aspeto determinante para o sucesso “as contantes palavras de acreditação de dois atletas, Hugo Lourenço e Pedro Gonçalves, o capitão, e do treinador”.
Para lá da visão global, que se repercutiu numa melhoria gradual do BCR nacional, Hugo Maia salienta que o papel de José María Cristo no progresso dentro de campo foi lacónico, mas fértil. “Havia muito talento e uma boa orquestra. Se ele tivesse usado muito o banco, se calhar nem tínhamos conquistado o ECMC. É aquele selecionador “eu tenho um cinco”, ponto”, filosofia que, aliada à estratégia de pressão, a partir daí uma “ferramenta muito aplicada” a nível interno, garantiu o respeito rival. “Era até espumar da boca! Pressão, pressão e mais pressão. Depois era berrar para fazer ouvir a nossa voz e não deixar o adversário respirar. De facto, eles nem conseguiam falar, porque a nossa ordem era falar mais do que os outros”, relembra Paulo Soeiro (1.0), um dos suplentes mais utilizados, que viu a união e o vociferar contínuo alastrarem-se ao banco. O extremo ex-GDD Alcoitão louva ainda os contributos do adjunto, Pedro Costa, “um apaixonado e estudioso do Basquetebol”, que oferecia análises pertinentes, assentes em “pormenores sobre como colocar a cadeira, bloquear, rodar ou defender”.
Seguiu-se a coroação, “o receber da medalha”, e uma última entoação d’ “A Portuguesa”. “Ouvir o nosso hino nacional e a maneira como cantámos dentro do pavilhão foi de arrepiar”, conta Paulo Soeiro, que não esperava uma recepção tão calorosa no aeroporto. “Não fazíamos ideia que havia tanta gente a seguir o nosso europeu. Quando a multidão nos viu, começou a cantar o hino nacional. Todas as restantes pessoas perguntavam quem éramos e porque é que não havia um único órgão de comunicação social à nossa espera, apesar de informados diariamente”.
Um ano mais tarde, Portugal embalava para um feito não menos meritório, ao assegurar a manutenção na Divisão B, em Notwill, Suíça, num encontro, cada vez mais frequente, com a Lituânia. Inscritos na história ficaram, em definitivo, os nomes de Paulo Soeiro, Pedro Gonçalves, Hugo Lourenço, Jorge Almeida, João Cardoso, Cláudio Batista, Aníbal Costa, Rui Nicolau, Henrique Sousa, Renato Pereira, Hugo Maia, Valter Mendes, Victor Sousa (dirigente), José María Cristo (selecionador), Pedro Costa (selecionador-adjunto) e Nuno Fonseca (massagista).