Artigos da Federaçãooo

“Para o bichinho do BCR morder, basta um jogo”

Gustavo Costa, árbitro internacional de BCR, abordou as especificidades da modalidade e o seu percurso de 20 anos, que contempla duas finais europeias de clubes e uma de seleções.

Como chegaste à arbitragem no BCR? 
Por mero acaso. Ligaram-me do CAD de Lisboa a dizer que precisavam de dois árbitros para fazer um jogo de BCR e respondi que conhecia muito pouco das regras específicas, mas o CAD referiu que não sabia menos do que qualquer um dos outros disponíveis. Estudei as regras e fui de boleia com os saudosos Carlos Cardoso e Ramos Marques, que iam ser os oficiais de mesa. Na viagem entre Campo de Ourique e Cascais, recebi um curso intensivo de BCR. Recordo-me que o meu colega foi o Rui Ribeiro, atual árbitro da LPB, também a fazer o seu primeiro jogo de BCR. Naquele dia, um “bichinho” mordeu-me e fiquei um absoluto fã.
Quais as diferenças fundamentais entre apitar basquetebol “a pé” e BCR?
Existem muitas, em especial na técnica de arbitragem (a procura do espaços entre os jogadores é totalmente diferente), nos ângulos de visão (em vez de olhar na horizontal e para cima, olhamos na horizontal e para baixo), na cobertura, porque o jogo é, em regra, muito mais espalhado, cada jogador ocupa muito mais espaço no solo, e não temos visão raio-x para ver através das cadeiras.
Foste, certamente, vítima de muitos “atropelamentos”. Algum particularmente aparatoso? 
Felizmente, não tive muitos, até porque são particularmente dolorosos. Mas recordo-me de um episódio giro num jogo internacional. Estava na linha de fundo, dois jogadores paralelos e a alta velocidade em direção a mim; eu estava onde devia, ou seja, a ver o pouco espaço que existia entre eles, e lembro-me de pensar “para onde vão virar quando chegarem à linha final?”. Decidi arriscar e ficar no mesmo sítio, com esperança de que ambos mudassem de trajetória. O que estava por fora mudou, mas o de dentro não. Saltei no último momento e aterrei praticamente no colo desse jogador.
Qual o jogo da tua vida?
Tenho que destacar três jogos, por motivos distintos: o primeiro (GDD Alcoitão vs. APD Lisboa), pela importância que o BCR teve na minha vida; o Croácia vs. Sérvia, no Europeu de 2005, pela carga emocional que teve, já que a guerra dos Balcãs ainda estava muito fresca na memória de todos e com alguns jogadores, em ambas as equipas, com lesões de guerra, mas felizmente correu sem problemas; finalmente, o último jogo da ronda preliminar da Euroleague 3, em Albacete (2015), entre a equipa local e os turcos Kardemir Karabük. Só se apurava uma equipa para a Final a 8 e tudo dependia da vitória naquele jogo, pavilhão cheio, a fazer dupla com o meu amigo José Cardoso. Terminou com diferença de um ponto. Foi um jogo eletrizante em que senti que tivemos um excelente desempenho.
O que tem de especial para ti o BCR? E o que dirias para persuadir jovens árbitros a enveredarem pela modalidade?
Para mim é paixão. Há muitos anos que digo uma coisa muito simples aos candidatos a árbitros de BCR: “Só quero que faças um jogo. Vais ficar viciado”. É claro que depois é necessário um percurso de dois ou 3 anos, no mínimo, para que seja possível dominar os fundamentos. Mas para o bichinho do BCR morder, basta um jogo.
Em anexo podem encontrar o palmarés de Gustavo Costa.

Jogadores marcantes #2: Helder da Silva

Analisamos o percurso de Helder da Silva, capitão do Servigest Burgos, do segundo escalão do basquetebol em cadeira de rodas (BCR) espanhol, cuja passagem, apesar de curta, deixou saudades na Seleção Nacional.

Sobram os dedos de uma mão para contar os casos de iniciação tão tardia, com sucesso ao mais alto nível, sem uma experiência desportiva prévia numa modalidade contígua, nos fundamentos e exigências.
Talvez seja até um palpite otimista. Helder da Silva (2.0) constitui um exemplo raro das premissas acima descritas, pois só em 1998, aos 30 anos, se sentiu tentado a experimentar jogar basquetebol. “A minha paixão vem de passar muito tempo no hospital a conviver com a modalidade, depois de sofrer um acidente de viação que me causou uma lesão medular”, conta o luso-espanhol, nascido em Valpaços.
No regresso a Burgos, a retoma da equipa local serviu de ensejo para consumar a vontade de testar os dotes num desporto profundamente arraigado no panorama paralímpico espanhol. Apenas seis anos antes, os Jogos de Barcelona acolheram uma final lotada, circunstância inaudita, entre Holanda e Estados Unidos.
Na formação de Castela e Leão, onde partilhou o balneário com Márcio Dias (APD Braga, capitão da Seleção Nacional) e Marco Gonçalves (GDD Alcoitão, internacional português), ostenta a marca admirável de 20 épocas ao seu serviço, testemunho invulgar de lealdade, o que não o impediu de “jogar com os melhores jogadores do mundo, fossem companheiros ou adversários”, já que a escalada do Servigest Burgos aconteceu num ápice, desde a 2.ª División, passando pela Primera, à División de Honor.
A também rápida evolução de Helder, consciente sem vaidade das suas virtudes, “boa visão de jogo”, capacidade de “gerir o tempo”, controlo de cadeira acima da média e “bom lançamento de três pontos”, iria conduzi-lo a um feito inesperado. “Uma das grandes alegrias foi ser chamado à Seleção portuguesa em 2010”, narra embevecido por um capítulo que guarda com carinho. “Agradeço muito a todos os jogadores, treinadores e dirigentes por toda a amabilidade”, faz questão de acrescentar.
Aos 52 anos, dono de uma longa bagagem competitiva num dos países que se coloca na vanguarda do BCR, Helder da Silva desafia os limites da longevidade e continua a jogar no Servigest Burgos, por quem se “compromete dentro e fora de campo”, mas expressa o desejo de terminar a carreira em Portugal. Na impossibilidade de o fazer como jogador, equaciona as funções de treinador para “ensinar aos mais jovens tudo o que aprendeu na que apelidam de “melhor liga da Europa”.
Nota: Em anexo podem consultar o palmarés de Helder da Silva e reações dalguns dos seus amigos

A estreia de Portugal nos Jogos Paralímpicos foi no BCR

Vamos recuperar Momentos Históricos do basquetebol em cadeira de rodas nacional, com a estreia em Jogos Paralímpicos, no ano de 1972, em destaque, com Fernando Neves como entrevistado.

Há 49 anos, num cenário implausível, com cadeiras quase sem adaptações e até sem se conhecer algumas das regras do jogo, descolava a epopeia portuguesa no BCR. Corria o ano de 1971, em Stoke Mandeville, onde, na década de 40, Sir Ludwig Guttmann ensaiara a primeira grande competição de desporto adaptado. “Foram 15 dias de intensa atividade, ao que penso, para preparar e afinar os Jogos Paralímpicos de Heidelberg 1972”, descreve Fernando Neves, o novato da comitiva, então com 15 anos, que enaltece “o movimento de voluntárias do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão e a Força Aérea”, principais mecenas da deslocação.
Da estadia em solo inglês, Fernando estima na memória o recorde de diferença de pontos no certame, “momento de glória” alcançado frente a Hong-Kong, mercê da vitória por 70-7. Mas as repercussões transformadoras de Stoke Mandeville extravasaram o plano desportivo. “Para mim foi importante, apesar da idade, a questão da paraplegia, a questão social, o que por cá ainda lutamos… Tive a perceção que estavam muito à nossa frente. De tal forma que assumi “a minha vida vai passar por uma cadeira de rodas”’, reconhece com orgulho.
Na antecâmara da disputa inédita dos Jogos Paralímpicos, em Heidelberg, o treino, a cargo do aluno de Fisioterapia Ângelo Lucas, “grande entusiasta deste acontecimento”, e duas fisioterapeutas coadjuvantes, decorria em condições singulares. “Ministravam treino diário, sobretudo de resistência, no perímetro do CMR de Alcoitão e no recinto de jogo/treino, um piso em alcatrão”. No que toca às cadeiras, “da marca Everest Jennings”, igualmente cedidas pelos mecenas, tinham como única especificidade “o encosto mais baixo, amovível”, razão pela qual fosse comum a utilização das cadeiras pessoais. Dado o estado incipiente da modalidade no país, as competições internas resumiam-se aos torneios ocasionais que envolviam “os indivíduos que, após a alta, permaneciam no Centro de Trabalho Protegido, na Venda Nova, e no Lar Militar”.
Em Heidelberg, a conotação solene do nome “Paralímpicos”, enraizado aos poucos, gerava uma expectativa extra nos atletas, que se aprontavam com otimismo, mas a realidade revelou-se impiedosa. “Confirmámos que havia muito trabalho a fazer”, relata o ex-atleta. Inserida na II divisão do torneio, a seleção nacional constatou as suas fragilidades ao averbar derrotas pesadas frente a Espanha – 58-28 -, Bélgica – 18-71 – e Canadá – 56-26 -, mitigadas, na moral lusa, pelo triunfo frente à Suíça -25-27. Um ano depois, em 1973, Portugal rumaria novamente a Stoke Mandeville, antes de mergulhar num longo hiato até 1994.
Natural de Trás-os-Montes, Fernando Neves tem alta do CMR de Alcoitão em 1974 e mantém a ligação à modalidade de modo precário. “Batia umas bolas. Sozinho, porque não havia, nem tinha conhecimento de outros. Enfim, idiossincrasias do interior”, circunstância a somavam as viagens a eventos esporádicos e a jogos de divulgação com a equipa de Alcoitão. Por isso, porfiou na criação de um contexto favorável à prática do BCR na região. Foi sócio-fundador da Associação Sociocultural dos Deficientes de Trás-os-Montes, que integraria as provas nacionais em duas épocas, apoiou ativamente a Associação de Deficientes Motores de Trás-os-Montes e, mais tarde, ingressou na Associação Portuguesa de Deficientes de Chaves, “pela manutenção, necessidade, e sobretudo, pelo prazer”.
Em aneco podem encontrar os resultados da competição de BCR dos Jogos Paralímpicos de 72.

“Em Linha” com Ricardo Vieira

Ricardo Vieira, técnico da APD Braga e Selecionador Nacional de Sub22, é o primeiro entrevistado sob o escrutínio da nova rubrica dedicada aos treinadores de basquetebol em cadeira de rodas.

Jogos da minha vida: O da conquista do primeiro grande troféu nacional (época 2012 – 2013), em que, no Pavilhão Casal Vistoso, defrontámos na final a APD Sintra (equipa que dominava tudo). Ao intervalo, perdíamos por mais de 10 pontos, veio uma pessoa perguntar-me “E agora Ricardo?” e eu respondi “E agora o quê? Vamos ganhar!”. Vencemos por mais de 7 pontos penso. Ver no final a alegria dos atletas que tanto tinham trabalhado, desde 2009, valeu a pena. Foi o jogo que mudou a minha vida como treinador, no sentido em que tive de pensar como tal e encontrar em mim aquilo que sou hoje. O outro jogo mais difícil (e pela negativa) foi a meia final contra a Grécia, no Europeu da Bulgária [2019]. Quem me conhece sabe que detesto perder. Já vi o jogo vezes sem conta e, sempre que vejo, fico com a sensação que era possível… No entanto, #420!
Quais os treinadores que exercem maior fascínio sobre ti?
São poucos, confesso. Aprendi a admirar alguns, isso sim. Tenho de referir Haj Bhania, pela persistência em acreditar num projeto de “Fundamental Skills” e levar a Grã-Bretanha ao trono mundial, Mike Frogley (Canadá), por ser enunciado por Pat Anderson como o melhor de todos e pelo projeto que elabora com os mais novos, o que me entusiasma a fazer o mesmo. Uma palavra de apreço também ao companheiro Marco Galego, pelo profissionalismo. Sem dúvida, os dois primeiros pelo trabalho e o último pelo prazer em querer alterar o nosso BCR.
Recorda-nos um momento caricato que tenhas vivido enquanto treinador.
Não sei se será o mais caricato, mas ainda falo sobre isso. A determinada altura, tinha dado ordem a um jogador substituir outro, pois sabia que isso ia “picá-lo” e surtiu efeito. O jogador que estava no campo ia ser substituído, percebeu (como eu esperava) e, além de defender bem, no ataque seguinte marcou 2 importantes pontos para a equipa. Obviamente, nessa altura, abdiquei da substituição.
Quais as competências que consideras essenciais para ser um treinador de sucesso?
Não me considero um treinador de sucesso. Considero-me um treinador em ascensão e com muito para aprender. Pelo modo como vejo o BCR, para sermos um treinador com “algum sucesso”, necessitamos conhecer o jogo. Não adianta ter anos de basquetebol “a pé” e achar que com esse conhecimento podemos singrar no BCR, é errado. Temos de conhecer o jogo, experimentar a modalidade e sermos muito bons em questões táticas. Perceber que nas pequenas coisas estão as grandes vitórias, ou seja, no fundamento básico (manuseamento de cadeira, drible, passe, lançamento, técnica individual de defesa e técnica individual de ataque). Além de tudo, perceber que do outro lado estão jovens ou adultos que precisam de sentir que estás com eles para tudo, precisas de saber ganhar o respeito e respeitá-los.
Em linha, a defesa que todos os treinadores querem, mas poucos conseguem. Qual a receita para lá chegar?
Se a soubesse, estaria no topo mundial e não nacional (risos). No entanto, é extremamente importante mover a equipa como um só, perceber que qualquer movimento em falso, isto é, que achemos que se o fizermos sozinhos seremos bem-sucedidos, resulta em erro! Tendo tudo em conta, do que já foi referenciado em cima (fundamentos básicos) e uma boa comunicação, é meio caminho andado para obtermos sucesso. Bons fundamentos para parar o adversário e excelente comunicação para, caso sejamos ultrapassados, saber passar a informação para a ajuda vir e resultar! A juntar a isto, obrigatoriamente, a componente física, caso contrário é só imaginar 40 minutos a andar de um lado para outro com uma cadeira e vemos o nível de exigência deste desporto.

“Não pares em casa”

Bruno Silva, treinador-adjunto da Seleção Nacional de BCR e do Basket Clube de Gaia, e licenciado em Educação Física, voltou a preparar um treino dedicado ao controlo de bola e cadeira de rodas e à força/potência.

Podem ver aqui o vídeo com todas as indicações. Em anexo encontra-se o documento escrito com os vários pontos do treino.

 


Jogadores marcantes de BCR: Hugo Maia

Inauguramos o segundo ciclo dedicado aos jogadores marcantes do basquetebol em cadeira de rodas português (BCR) com o perfil de Hugo Maia.

 

Guerreiro, mas conciliador, dentro e fora do campo, o capitão do GDD Alcoitão e sub-capitão da Seleção Nacional construiu uma carreira fértil em triunfos, alcançados, em especial, na sua alma mater, a APD Sintra.

 

Representou Portugal em 7 Campeonatos da Europa, leque onde se contempla a memorável campanha de 2007 que conduziria a Seleção Nacional ao seu único título, na Divisão C, elenco do qual é o único resistente nos atuais quadros. Porque o espírito intrépido não se confina aos contra-ataques sem freio, aos 41 anos, Hugo Maia, mercê da capacidade de entrega incessante e disciplina férrea, permanece no núcleo dos melhores intérpretes no país.

 

Anseia, como poucos, por nova glória paras as cores nacionais, na que poderá ser, em 2021, a sua oitava presença em competições oficiais.

 

A incerteza e a apreensão pontuam quase sempre a iniciação desportiva paralímpica, ou esta não implicasse trazer à superfície do pensamento a constatação de perda da capacidade atlética, que a pessoa com deficiência julga irreparável.

 

Porém, com Hugo Maia não foi assim. Atleta inveterado, praticara “ténis no Boavista FC na infância”, voleibol e natação na adolescência, por isso esta porta nunca se poderia fechar. “Após o acidente, tinha uma vontade imensa de voltar a fazer desporto, até estava inicialmente inclinado para o atletismo, mas felizmente a APD Sintra não tinha cadeira adequada a mim”, um pequeno infortúnio que facilitou a decisão de agarrar a oportunidade no BCR. “Percebi rapidamente que era BCR que queria jogar, depois de me sentar na cadeira e interagir com o pessoal”, narra.

 

A reconstituição deste momento suscita-lhe uma ponte imediata com o nome do obreiro da sua iniciação, Victor Sousa, atleta e dirigente com uma influência inquestionável na APD Sintra e no BCR nacional. “O Victor soube aproveitar a oportunidade e identificar um miúdo de 19 anos, que sempre fez desporto e poderia tornar-se num jogador válido”, recorda o internacional português, cuja dedicação lhe permitiu rapidamente escancarar esse rótulo modesto.

 

A escalada de conquista em conquista que se seguiria, cuja longevidade lhe confere o privilégio de decidir qual será o ponto final, deve-se, afirma, “sem esquecer os colegas de equipa” e os fisioterapeutas João Coelho e Bernardo Pinto, a muitos dos treinadores, a quem presta uma mensagem de agradecimento. “José Maria Cristo, pela visão e oportunidade, Luís Mendes, pela persistência, Inês Lopes e Nils, pela experiência e pela ligação aos atletas, Pedro Costa, pela criatividade e irreverência, Jorge Almeida, pelo vasto conhecimento, Ricardo Vieira e Marco Galego, pela ligação, reconhecimento, valorização, desafio e exigência, e Fernando Lemos, que com 2 anos de experiência de BCR, mas décadas de treinador de basquetebol, consegue reunir a maioria das qualidades dos anteriores, com potencial para se tornar num dos melhores treinadores de BCR português”.

 

A gratidão serve como remate perfeito na história de um atleta que, como se depreende dos testemunhos que seguem em anexo, sem esquecer o palmarés, soube arvorar um trajeto de êxito na virtude de proporcionar a alegria do jogo aos que o rodeavam.


“Man Out” a Paulo Taborda

Atleta histórico do Sporting CP-APD Sintra, ao longo de 23 anos de carreira Paulo Taborda colecionou títulos, incutindo irreverência e poder de fogo à equipa que se viria a converter na mais ganhadora em Portugal. A intimidade com o cesto e a criatividade, atributos certamente não alheios à influência de Pedro Esteves, seu mentor e a quem presta tributo nesta entrevista, levaram-no à Seleção Nacional, cuja camisola envergou em 4 Campeonatos da Europa e, ainda sob a designação Team Lisboa, em  2 Taças Andre Vergauwen. É ele o protagonista da rubrica “Man Out”.

Data de nascimento: 14-01-1972
Ano de iniciação: 1997
Posição: poste
Clube: Sporting CP-APD SINTRA
Palmarés: 11 Campeonatos Nacionais, 11 Taças de Portugal, 14 Supertaças; Participação em 4 campeonatos da Europa, 5 Taças Andre Vergauwen e 4 Taças Willi Brinkmann
Jogo da tua vida (e porquê): De certa forma, todos os jogos que disputei são jogos de uma vida. Vou mencionar o primeiro jogo que fiz. Foi no Pavilhão de Queluz, logo nas primeiras jogadas, em que fiz um lançamento do meio campo e que, claro, nem à linha do garrafão chegou. Outro foi contra a APD Braga, no qual falhei o último cesto nos últimos segundos. Se tivesse convertido, ganharíamos a taça de Portugal.
Chamam ao BCR a modalidade paralímpica rainha. Se tivesses que convencer alguém a ver ou praticar, como o “vendias”?
Já ando nestas andanças vai para mais de 30 anos e consegui convencer alguns dos atletas que ainda jogam ao mais alto nível. A primeira abordagem não é nada fácil, pois um desconhecido abordar uma pessoa portadora de deficiência torna-se um pouco desconfortável para mim. A melhor forma de o fazer é comprometer logo a pessoa a experimentar o contacto com a cadeira, a bola e o cesto.
Qual ou quais os jogadores que exercem maior fascínio sobre ti?
Quando iniciei no BCR, a minha maior referência era Pedro Esteves (ler aqui). Por ele é que eu pratico esta modalidade. Naquela altura, era o Michael Jordan do BCR; depois Manuel [GDD Alcoitão], João Cardoso e António Gordo. Por fim, o jogador da seleção holandesa da altura, Van der Linden, um bi-amputado dos melhores que já vi jogar ao vivo, então nos Paralímpicos de Barcelona, em 1992.
Recorda-nos um momento caricato que tenhas vivido por jogar BCR.
Tenho muitos nestes anos, mas vou mencionar um em particular, num estágio da Seleção. Íamos todos tomar banho e, como sabem, os paraplégicos necessitam de cadeira para o tomar. Naquele dia, o dito atleta sentou-se e não é que ficou preso na cadeira de plástico de uma forma… particular? Foi uma carga de trabalhos para resolver a situação e eu que o diga, mas lá consegui.
Qual o teu movimento, gesto ou momento do jogo favorito?
Como poste, um dos meus movimentos preferidos é fazer um contra um. Não é por nada que me chamam o jogador que não dá a bola a ninguém, pois só vejo cesto. O BCR evoluiu bastante e trabalha-se muito os bloqueios, o que facilita muito.
Qual o jogador a quem gostavas de fazer “Man Out”?
O jogador seria, sem sombra de dúvidas, Victor Sousa. Foi para mim uma das pessoas que mais deu a esta modalidade e, se hoje o BCR existe tal como é, deve-se muito a ele. E, também porque não estou tão bem fisicamente, seria de certo mais fácil para mim fazer um “Man In”.

“Temos de popularizar a nossa modalidade”

O currículo de Roberto Ramos ilustra a dimensão do seu vínculo com o basquetebol em cadeira de rodas (BCR) e o espírito dinâmico que lhe proporcionou contribuir para momentos pioneiros na modalidade do seu país natal, que abarca cerca de 100 equipas. No vasto rol de honras e títulos, destacam-se a participação em quatro Jogos Paralímpicos (Heidelberg 1972, Toronto 1976, Arnhem 1980 e Seul 1988), o bronze alcançado em três edições dos Jogos Parapan-americanos, as várias aparições com medalha nos embrionários Jogos de Stoke Mandeville ou o pentacampeonato brasileiro ao serviço do CPRJ. Os méritos fora do campo nada ficam a dever ao trajeto invejável como atleta. Roberto foi o selecionador da primeira seleção feminina brasileira, em 1978, tendo pouco depois, em 1981, enveredado pela carreira da classificação funcional. Em 2005, fundou a Federação de Basquete Adaptado do Estado do Rio de Janeiro e, prova da sua versatilidade, comentou, na SPORTV (Brasil), as competições de BCR dos Jogos Paralímpicos de Pequim 2008, Londres 2012 e Rio 2016. Em Aveiro há dois anos, aos 66 de idade, Roberto Ramos sentia falta de uma equipa de BCR na região e materializou o seu desejo na AD Vagos, onde desempenha as funções de treinador-jogador. 

O que te motivou a formar uma equipa de BCR em Aveiro?
Sou “basqueteiro” desde adolescente. Após me instalar aqui em Vagos, procurei logo por um clube ou associação que desenvolvesse o desporto paralímpico, independentemente da modalidade, e não encontrei. Então, procurei saber onde se jogava basquetebol. Encontrei o Pavilhão Municipal de Vagos, local onde a AD VAGOS desenvolve as suas atividades, e abordei o presidente Mário Rocha, apresentei-me e falei um pouco sobre minha carreira internacional na modalidade, sugerindo iniciar a criação de uma equipa. Ele comprou a ideia.
Como tem sido o processo de recrutamento de atletas?
Por não haver nenhuma equipa, imaginei que essa tarefa seria fácil. Enganei-me completamente. Aqui, em Portugal, é muito difícil convencer a pessoa com deficiência a praticar desporto. Contactámos com 13 possíveis atletas, conseguimos motivar cinco, entre eles uma feminina, mas apenas três ficaram. Eu queria logo montar uma equipa para disputar o Campeonato da 2.ª Divisão e o processo de formação de um atleta leva muito tempo. Comecei a procurar por ex-atletas de basquetebol e andebol e encontrámos mais três que se dispuseram a voltar a praticar desporto. Ainda faltavam atletas, então fizemos um protocolo com a APD Lisboa, que nos emprestou três atletas, todos brasileiros.
Notas alguma diferença, entre Portugal e Brasil, na forma de encarar a deficiência e o desporto?
Sim. Existe nas pessoas ditas fisicamente normais um certo grau de preconceito com as pessoas com deficiência. Quando fazemos um convite, a pessoa não se sente capaz de ser um atleta, muitos riem do convite e indagam: “Mas como ser um atleta? Isso não é para mim”. Às vezes, até se emocionam e dizem que vão pensar. Além disso, ainda temos o sério problema da mobilidade. Infelizmente, é quase zero. É um somatório negativo de muitas variáveis a que se junta a falta de apoio de empresas públicas e do governo.
Quais os objetivos a médio prazo com a AD Vagos?
Estamos muito motivados. Criámos a AD Vagos Núcleo, que pretendemos que tenha um cunho de Centro de Desporto Adaptado, voltado para trabalharmos em toda a região Centro. Estamos em contacto com três associações do Brasil a fim de fazermos intercâmbios, aprofundarmos conhecimentos e aprendizagens para, no futuro, nos aproximarmos aos melhores da Europa, à profissionalização.
Participaste em 4 Jogos Paralímpicos. Atendendo à tua experiência, o que falta a Portugal para subir de patamar no BCR internacional?
Temos de popularizar a prática da nossa modalidade, através de exibições em escolas, faculdades, clubes, e até nas praças, no formato 3X3, competição que a IWBF pretende tornar Paralímpica. Devemos trabalhar para melhorar a estrutura física e administrativa da modalidade, possibilitando o surgimento de mais atletas, capacitação de técnicos, árbitros, classificadores e dirigentes. Consequentemente, vão surgir novos elementos para melhorar a estrutura dos clubes, o que produz melhores atletas, promovendo uma evolução das seleções.

“Não pares em casa”

Regresso da rubrica “Não pares em casa”, agora com o primeiro treino dedicado ao basquetebol em cadeira de rodas (BCR) neste período de quarentena. O apronto, dividido em três blocos, foi preparado por Bruno Silva, licenciado em Educação Física, e treinador-adjunto da Seleção Nacional de BCR e do Basket Clube de Gaia.

“Não pares em casa”, agora em mais uma variante da nossa modalidade! Em anexo podem encontrar o documento com toda a informação escrita.

Para ver aqui:


Pedro Bártolo eleito representante português para o comité de jogadores da IWBF-Europa

A IWBF – International Wheelchair Basketball Federation – determinou a criação de um Comité de Jogadores de basquetebol em cadeira de rodas (BCR), passo estudado há vários anos dentro da comunidade, agora transposto para a prática. De modo a levar avante esta resolução de ouvir a voz dos atletas, a delegação europeia do organismo que tutela o BCR encetou contactos com todos os NOWB – National Organization of Wheelchair Basketball –, organismos oficiais de cada país, aos quais se solicitou a indicação de um nome de um jogador. Entre os requisitos, constavam ser um “atleta no ativo, interessado e desejoso de fazer parte do movimento”, com boa capacidade de comunicação e conhecimento do contexto internacional. 
O Comité Nacional de BCR (CNBCR) entendeu que Pedro Bártolo, sub-capitão da Seleção Nacional e com vasta experiência internacional, é o atleta que melhor se enquadra nas caraterísticas previamente enunciadas. Compete ao representante nacional a intermediação entre os atletas a atuar no país e o organismo nacional responsável em âmbitos como os aspetos técnicos, regulamentares, modelos competitivos, promoção da modalidade ou o processo de classificação, congregando opiniões que irão funcionar como ponto de partida para a elaboração de propostas. Além disso, a IWBF-Europa decidirá em conselho executivo qual o representante nacional a desempenhar igual função pela delegação europeia no comité de jogadores à escala mundial.  

Dez jogos de excelência do BCR internacional de seleções para assistir online

Dentro do crescente acervo digital da modalidade paralímpica mais mediática, o basquetebol em cadeira de rodas, cujo cartão de visita se anuncia na espetacularidade dos impactos de fazer desviar o olhar ou no manejo simultâneo de bola e cadeira, escolhemos dez encontros emblemáticos, quase todos eles situados na presente década. Entre finais paralímpicas, exibições que não se esquecem da nossa Seleção ou encontros que simplesmente conquistaram o seu lugar nesta lista, pelo nível acima da média, há muito para ver e desfrutar. 

10 jogos do melhor BCR internacional de seleções
Austrália vs. Canadá – Final Jogos Paralímpicos 2008
Parte 1: aqui
Parte 2: aqui
Parte 3: aqui
Parte 4: aqui
Turquia vs. Grã-Bretanha – Meia-final – Campeonato da Europa 2019: Para ver aqui
Espanha vs. EUA – Final – Jogos Paralímpicos 2016: Para ver aqui
EUA vs. Grã-Bretanha – Fase de Grupos – Campeonato do Mundo 2018: Para ver aqui
Alemanha vs. Holanda – Meia-final (feminina) – Jogos Paralímpicos 2012: Para ver aqui
Austrália vs. EUA – Final – Campeonato do Mundo 2014: Para ver aqui
Portugal vs. República Checa – Medalha de Bronze – Campeonato da Europa C 2019: Para ver aqui
Portugal vs. Áustria – Fase de Grupos – Campeonato da Europa B 2016: Para ver aqui
Portugal vs. Grécia – Fase de Grupos – Campeonato da Europa C 2017: Para ver aqui
Portugal vs. República da Irlanda – 9.º/10.º lugar – Campeonato da Europa B 2016: Para ver aqui

Conheçam o basquetebol em cadeira de rodas ao pormenor

Aproveitamos a paragem das competições para reunir todos os artigos que explicam ao detalhe a história e as peculiaridades técnicas do basquetebol em cadeira de rodas, modalidade mais profissionalizada e popular do panorama paralímpico. Foi nela que Portugal se estreou nos Jogos Paralímpicos em 1972, na Alemanha, em Heidelberg, reservando-se uma longa travessia desde então, até ao momento de maior glória para as cores nacionais, corria o ano de 2007, quando a Seleção conquistou o Campeonato da Europa da Divisão C, em Dublin, e subiu ao segundo patamar continental. Fiquem a par deste e de outros marcos, bem como das diferenças ou semelhanças imprevistas, como o facto das tabelas se erguerem aos mesmos 3,05m, face à versão convencional do jogo. 


Noticias da Federação (Custom)

“Foi um jogo muito competitivo e o benfica levou a melhor”

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Legenda

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Miguel Maria

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