David Lima é campeão da Landesliga no primeiro ano de Berlin Dreams
Projeto ambicioso resulta da fusão de outras equipas e quer constituir referência na capital alemã
Competições
18 MAR 2026
David Lima, ex-GDD Alcoitão e fundador da equipa da ACD Cotovia/UDI, sagrou-se vencedor da Landesliga 1, equivalente ao grupo Este, pelo que garantiu a promoção à Oberliga Este, quarto escalão do país. Em ano de estreia pelo Berlin Dreams, o atleta luso viu o aliciante projeto – que abarca cerca de 1500 jogadores na formação – dar frutos e já aponta a nova subida de escalão na próxima temporada.
No novo dínamo basquetebolístico da capital germânica, além do elevado número de atletas, salta à vista a dinamização de equipas para atletas com deficiência intelectual e equipas com pessoas com e sem deficiência. No que ao BCR diz respeito, David acalenta a escalada sustentada do clube ao topo da modalidade no país, a fim de suprir a estranha ausência de um emblema da capital na mais profissionalizada liga europeia.
Em entrevista à FPB, o atleta, treinador e promotor do jogo abordou as bases do êxito do Berlin Dreams, a delicada gestão entre equipas e papéis na corrente temporada e a presença massificada de atletas sem deficiência – que até têm a mesma pontuação de um jogador com minimal handicap (4.5) – na Alemanha, modelo que espera ver adotado à escala mundial, numa modalidade que considera romper o binómio Paralímpico-Olímpico.
1 – O que motivou este sucesso imediato do Berlin Dreams?
Por um lado, o facto de assentar em três projetos que já existiam: o RSC Berlin, a equipa mais antiga da Alemanha, mas que estava na última divisão e os atletas – muitos com passagens na Bundesliga – juntavam-se para jogar. Temos jogadores muito fortes para a Landesliga e fomos buscar um treinador, para voltar a ser uma equipa de Basket e deixar de ser um grupo de amigos que se juntava. Tínhamos seis jogadores base e outros oito em iniciação ou cujo nível mais se enquadrava no escalão. O Berlin Dreams também resulta da fusão de dois projetos de Basket a pé já com estrutura montada. O que fizemos foi uma reestruturação, com treinador, novo nome, redes sociais a darem visibilidade e o apoio do Berlin Dreams em termos de streaming e social media. Agora, no final da época não havia a intenção de jogar uma liga superior, mas no presenta já há a vontade de continuar a subir.
2 – Qual a magnitude e objetivos do projeto?
O Berlin Dreams é o quinto maior clube da Alemanha. Em termos de formação, estamos a falar de 1500 atletas ativos, a jogarem nas diferentes camadas. Dos minis aos veteranos, masculinos e femininos, passando pelo BCR, equipas para atletas com deficiência intelectual e equipas com pessoas com e sem deficiência. Em termos de BCR, somos 16 jogadores. Os objetivos para a próxima época passam por constituir duas equipas, uma na Landesliga e outra na Oberliga. A nível competitivo, queremos ser primeiros classificados e subir à Regionalliga. A médio prazo/longo prazo, o objetivo é chegar a uma Bundesliga 2, estabelecer aí a equipa para, a longo prazo, pensar numa subida a uma primeira liga. Berlim não tem uma equipa na primeira Bundesliga.
3 – Este ano, além de jogador e treinador-adjunto do Berlin Dreams, preservaste a ligação ao SGH Berlin como jogador. O que te move e como foi essa gestão?
Tinha decidido só dedicar-me ao Berlin Dreams e apoiar a equipa onde comecei. Mas o RSC Berlin jogava na Landesliga, não havia vontade de subir. Têm sido anos que queria muito jogar ao mais alto nível e surgiu esta oportunidade de representar o SGH Berlin, na Regionalliga e na Bundesliga 2. Cheguei ao meu objetivo de jogar a Bundesliga 2 antes dos 36 anos. O problema do SGH é o mesmo de todos os clubes, poucos jogadores, budget e estrutura insuficientes para aguentar os jogadores que são bons. Saíram para Hannover, Thuringia Bulls, Hamburgo, que têm escolas desportivas e permitem a conciliação com os estudos. Havia 3 jogadores do RSC que apoiavam o SGH, sendo eu um deles. Este ano o objetivo era apoiar o RSC e o SGH quando possível. Saí em dezembro do SGH perante a necessidade de escolher. O objetivo era dar uma mão ao SGH.
4 – Qual o olhar sobre a participação de pessoas sem deficiência no BCR alemão?
Tema muito importante para mim. No primeiro ano em Portugal, treinei e não podia jogar. Só na 2ª divisão. Foi sempre uma luta minha. Temos aqui muitos ex-jogadores andantes. Há pessoas com problemas de joelhos, de costas, que já não são tão rápidas de pé. E depois há o meu caso, que jogam pela universalidade do jogo. É o desporto a nível mundial mais equitativo e inclusivo. É isso que me chama para o BCR, a vivência de comunidade, de estarmos todos juntos independentemente das condições específicas. Joguei em pé e adoro a forma como a cadeira de rodas cria um novo jogo de Basket. Para mim, já não é desporto adaptado. Possibilita a muitas pessoas com condições específicas e muito diferentes jogarem o mesmo jogo a partir do momento em que se sentam na cadeira, que é o denominador comum. Vejo como um desporto para pessoas com e sem deficiência a nível internacional e de seleções, no futuro. Para mim, o BCR não é Paralímpico, nem Olímpico. Vejo o BCR como modalidade Olímpica, sem esta diferença do Paralímpico e Olímpico. Há Jogos Olímpicos e os melhores dos melhores, seja um Pedro Bártolo, Hugo Maia ou Usain Bolt.
Na Alemanha, jogam muitas pessoas sem deficiência – com 4.5 – e têm até aos 16 anos direito ao bónus de idade – de 1 ponto -, por exemplo. As mulheres sem deficiência jogam com bónus de 1.5. São sem dúvida uma mais valia em termos desportivos e estruturais, em termos de organização. Na minha equipa, em 14 jogadores, temos 3 pessoas sem deficiência. Não há um número máximo de jogadores sem deficiência em campo, desde que estejas com 14.5. As seleções da Alemanha estão a chamar mais um ou dois jogadores sem deficiência, porque acham que devem ter os melhores jogadores para estarem a treinar e ajudar os jogadores e a seleção a evoluírem.
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Foto de capa: Berlin Dreams




