Filipa Barros: “Se tivesse que fazer tudo de novo, recomeçava sem pensar”

A base lusa esteve à conversa com Ricardo Brito Reis

Atletas
14 MAI 2026

Filipa Barros chegou ao último ano de elegibilidade na NCAA pela porta grande. A base portuguesa, de 22 anos, fechou a época 2025-26 em California Baptist com 16 duplos-duplos, o recorde do programa em ressaltos e em roubos de bola, e o prémio de MVP do torneio da Western Athletic Conference, tornando-se, no processo, a única jogadora entre as mais de 350 universidades da Division I com médias de pelo menos 10,5 pontos, 9,5 ressaltos e 4,5 assistências a marcar acima de 40% nos triplos. O feito valeu-lhe o lugar 33 no ranking do transfer portal feminino da USA Today e uma transferência para a University of Utah, da Big 12, onde vai disputar a temporada 2026-27.

Em entrevista exclusiva à FPB, Filipa Barros fala sobre a época que a colocou no mapa da NCAA, sobre as terças-feiras até às onze e meia da noite no pavilhão que ninguém viu, sobre a conversa com Inês Vieira antes de dizer sim a Utah, e sobre o plano para depois da NCAA, que passa pela Austrália e por não parar.

 

Ver esta publicação no Instagram

 

Uma publicação partilhada por Filipa Barros (@filipa_barros71)


Fizeste quatro anos em California Baptist, porque fizeste um ano de redshirt pelo meio. Que balanço fazes desses quatro anos na Califórnia?

É um balanço muito positivo. Foram literalmente os melhores quatro anos da minha vida. Tive muita sorte, não tanto pelo sítio, por ser na Califórnia, mas pelas pessoas que conheci. Era o que eu estava a dizer aos meus pais: se eu tivesse que fazer tudo de novo, recomeçava sem pensar.

E em termos de basquetebol também foste feliz.

Sim, correu tudo ótimo.

Este época, California Baptist fez 23-11, foi campeã da Western Athletic Conference na fase regular e no torneio — a melhor época coletiva do programa desde que está na Division I. Por que é que esta época correu tão bem?

Acho que tínhamos um grupo de returners muito forte. Éramos cinco returners e o nosso único objetivo era mesmo ganhar. Não queríamos saber o que é que acontecia, íamos para cada jogo para ganhar. Tivemos uma altura muito complicada, perdemos cinco ou seis jogos seguidos, mas quando entrámos na fase do torneio de conferência fizemos uma reunião com a equipa toda e o objetivo era começar do zero. Estávamos todas na mesma página.

E para ti foi uma época especial também por ser uma época de regresso, depois de teres falhado tanto tempo por lesão.

Sim, não podia ter tido melhor época de comeback. Estive saudável a época inteira. A única coisa que aconteceu foi ter partido o nariz, por isso acho que não foi mal.

Acabas a época com 16 duplos-duplos, recorde do programa em ressaltos e em roubos de bola, e foste eleita MVP do torneio da conferência. Como é que defines esta versão de ti própria?

Esta versão minha teve muito mais confiança, como é óbvio desde o meu primeiro ano. E o facto de ter ficado um ano sem jogar acabou por ser muito positivo, porque aprendi a olhar para o jogo de uma maneira diferente, aprendi a aproveitar cada jogo como se fosse o último, porque nunca se sabe o dia de amanhã. Em relação aos ressaltos, o treinador tinha-me dito que queria que a equipa jogasse rápido, e a maneira para a equipa jogar ainda mais rápido é a base apanhar ressaltos. Como o objetivo era ganhar, e era isso que nos fazia ganhar, tentava apanhar o máximo de ressaltos que conseguia para mandar a bola lá para a frente e as minhas colegas marcarem.

Falaste numa questão interessante: o facto de teres passado um ano inteiro no banco, a ver o jogo de outra perspectiva. O que é que viste de diferente esse ano sentada no banco?

O que me ajudou muito foi estar a ver as jogadoras da minha equipa com quem ia ter que jogar no ano seguinte. Aprendia quais eram os pontos fortes de cada uma, o que tinha que fazer para elas marcarem mais pontos. E também tinha sempre que fazer a possession board, o que me ajudou imenso a olhar para o jogo com mais atenção.

O que é a possession board?

Em cada posse de bola, tinha que ver quantos ressaltos ofensivos apanhámos, quantas assistências tivemos, quantos roubos de bola tivemos. Fazia essas estatísticas todas e isso ajudou-me muito a prestar mais atenção ao jogo e aos pequenos detalhes.

E olhar para os adversários também? Perceber as tendências do que as outras equipas tinham quando jogavam contra vocês?

Sim, claro. Como base, prestei mais atenção a quando é que as equipas defendiam zona, quando é que se percebia essa mudança de zona para homem — essas pequenas coisas.

E isso ajudava-te este ano a identificar e a comandar a tua equipa lá dentro?

Sim, cem por cento.

Foste a única jogadora da Division I com médias de pelo menos 10,5 pontos, 9,5 ressaltos e 4,5 assistências a marcar acima de 40% nos triplos. A única entre mais de 350 universidades. Tens noção do especial que é este feito estatístico?

Pessoalmente não tinha noção até meter o meu nome no portal. Mas acho que foi mais fruto do meu trabalho. Trabalhei imenso este ano, estava muitas noites no pavilhão. Foi uma recompensa do trabalho. Sabia que era uma coisa que me ia diferenciar como jogadora se começasse a marcar mais triplos, e foi isso.

Isso de estar toda a noite no pavilhão — o que é que as pessoas não viram e que depois resultou nesta Filipa que marca 40% de três pontos?

Todas as terças-feiras, sem exceção, ia ao pavilhão desde as seis e meia, sete da tarde, com um amigo, até às onze e meia da noite. Todas as terças-feiras sem falta. Depois havia momentos em que ia ao pavilhão durante uma hora e meia, duas, durante o resto da semana, mas terça-feira tinha sempre esse horário. Fazia muitos exercícios de lançamento e acho que foi isso que se notou. Até o segurança, que tem que mandar toda a gente embora, deixava-me ficar. Sabia que terça-feira era o meu dia.

E esse teu amigo não se cansou de ganhar ressaltos e passar a bola?

Não. (risos)

Filipa Barros celebra a conquista da Western Athletic Conference

Foram ao torneio, cruzaram logo com UCLA. O que é que aprenderam dessa participação e desse matchup direto com uma das melhores equipas do país, que acabou por conquistar o título?

Eu pessoalmente estava a torcer para jogar contra UCLA. Achei que era uma oportunidade única. Ainda conseguimos uma boa primeira parte; na segunda parte notou-se que elas eram de outro nível. O físico conta muito: elas eram jogadoras muito altas, muito fortes, e nós não tínhamos isso. Mas aprendi que ainda temos muito para trabalhar.

Uns dias depois da eliminação, meteste o nome no transfer portal. Foi uma decisão que já trazias tomada durante a época?

Durante a época tentei não pensar nisso. Desde que tive a lesão no pé, aprendi a não pensar no futuro, a viver mais o presente, porque quando me lesionei tinha expectativas muito altas, e quando torci o pé foi ainda pior por causa disso. Mas quando a época acabou foi logo o que me veio à cabeça. Com as estatísticas que tinha tido, senti que já tinha feito tudo o que tinha para fazer em CBU. Tivemos uma reunião passados três dias com o treinador; ele disse que ia tirar aquela semana de folga e que na semana a seguir queria ter uma reunião individual com cada uma, mas que se alguém já tivesse a decisão tomada podia mandar-lhe mensagem. Depois da reunião mandei logo mensagem e foi aí que lhe disse.

Tu falas da questão das expectativas. Lembro-me de termos falado há uns anos, quando já estavas em CBU, e tu dizias que a tua maior inimiga eras tu mesma — que eras muito exigente, que no final dos jogos batalhavas muito na tua cabeça com as coisas que tinhas feito mal. Estás mais madura nesse aspecto?

Sim, sem sombra de dúvida. Este ano, se tivesse um jogo mau, o que pensava era: o ano passado não estava a jogar. É completamente diferente.

A lesão pôs tudo em perspectiva.

Sim. E acabo por dizer que foi a melhor coisa que podia ter acontecido — não foi a melhor coisa, mas acabou por trazer muitas coisas boas.

Cresceste do ponto de vista mental.

Cem por cento.

Tiveste outras ofertas para além de Utah. Como foram essas duas semanas no portal?

O portal é uma coisa louca, eu não fazia ideia que era assim. Foram duas semanas de muito stress. Meti o meu nome no portal — basicamente vais falar com CBU, eles mandam-te um link, tens que ver um vídeo, depois submeter, e eles metem automaticamente o teu nome. A partir do momento em que o meu nome entrou, sem exagerar, um minuto depois já havia posts no Instagram a dizer que eu ia sair, e eu ainda queria postar alguma coisa para CBU. Passados dez minutos já tinha para aí cinco convites de mid-majors. E eu estava a fazer um estágio para me graduar, não conseguia estar no telemóvel. Era louco — toda a hora recebia mensagens. A minha colega de casa, a Khloe, eu estava a falar com ela no quarto e o telefone dela começa a tocar e depois o meu também, e fomos as duas cada uma para um quarto. Era uma festa.

E acabas por decidir por Utah. O que é que Utah te apresentou que as outras não conseguiram?

Foi a universidade que mostrou interesse desde o início, não pararam. Fui lá visitar e gostei das condições do pavilhão. O facto de ser perto da Califórnia ajudou muito — eu queria ficar na Califórnia, mas não deu; Utah é perto, ajudou. E o treinador, tudo o que ele mostrou. Acho que foi a melhor decisão que eu podia tomar.

O treinador é o Gavin Petersen, que já era adjunto no tempo em que a Inês Vieira estava lá. Ele falou-te da Inês?

Falou, e mandaram logo mensagem à Inês para ela me contactar.

Como foi esse processo? O que é que a Inês te disse?

A Inês falou do treinador, disse coisas boas, disse que sabia que eu ia ter tempo de jogo. O meu objetivo era ir para uma boa conferência com tempo de jogo, e ela disse que era o que ia acontecer se trabalhasse bem. Falou bem das condições, falou bem do sítio. Disse só coisas boas.

Vai jogar na Big 12, com equipas como Kansas State, BYU, TCU, Iowa State — programas com histórico de ir à Final Four. O que é que achas que vai mudar concretamente no teu dia-a-dia neste ambiente?

Vou ter que trabalhar ainda mais do que aquilo que já trabalhava. Era o meu objetivo, jogar contra as melhores equipas do país, e só me vai dar mais motivação.

E vais poder jogar contra a Clara Silva.

É bom. Acho que nunca joguei contra uma portuguesa. Ah, joguei sim, joguei contra a Rita Nazário este ano.

O treinador Gavin Petersen certamente apresentou-te uma ideia do papel que quer que tu tenhas na equipa?

Falou que a maneira como a Utah joga é muito parecida com a maneira que a CBU jogava. Quer jogar rápido, quer jogar com muita raça, quer que defenda, que pressione a bola a toda a hora — e é o que eu gosto e senti falta este ano. E quer que não seja só uma base, mas também uma marcadora de pontos. Mais uma coisa que eu senti falta este ano: eu sentia falta de ter mais alguém a criar para mim. E disse que, como é óbvio, se trabalhar e continuar como estava a jogar em CBU, terei os meus minutos de jogo.

Gostas de jogar sem bola?

Sim, eu gosto de ser base, mas ao mesmo tempo consigo lançar e senti falta de alguém que criasse para mim.

O que é que achaste que cresceste mais este ano?

Para além de lançar melhor, eu diria que a liderança foi uma das coisas que aprendi mais. Aprendi a ter mais voz no campo, a ser uma líder dentro da equipa.

Sempre foste uma jogadora expansiva. Este ano notou-se essa versão mais vocal, sem medo de apertar com as colegas.

Foi a diferença deste ano para os outros anos.

Num contexto novo, vais retrair outra vez ou vais continuar a ser essa líder?

Vou continuar. Tenho que continuar.


Este é o teu último ano de elegibilidade, depois do melhor ano da tua carreira. O que seria um bom ano de 2026-27 para ti?

Ganhar pelo menos a primeira fase do March Madness, tentar ir o mais longe possível. Era o meu objetivo desde que vim para os Estados Unidos.

Já conheces algumas das colegas de equipa?

Fui lá visitar e conheci algumas, mas não são minhas amigas ainda.

Quando é que vais para lá?

Daqui a um mês, acho que é 3 ou 4 de junho, ainda não tenho voo. Há uma pausa de 1 a 21 de agosto, mas vou desde início de junho até agosto.

E o NIL? Como é que funciona nas grandes conferências?

Também nestas grandes conferências é muito diferente da conferência onde eu estava, mas essa parte dei ao meu agente. Não faço ideia como é que isso se trabalha.

Não foi um fator na tua decisão?

Não, de todo. Claro que é bom, mas não é prioridade. O que eu queria era um sítio onde pudesse crescer, uma conferência mais competitiva e jogar. O dinheiro não foi nada da decisão.

Este é o teu último ano de elegibilidade. Onde é que te vês depois da NCAA?

O objetivo depois é ir jogar na liga mais alta que eu conseguir, onde tiver que ser.

Deixas todas as opções em aberto. Vês-te a jogar na Europa?

Como é óbvio, o meu objetivo é conseguir jogar no mais alto nível que eu conseguir. Gostava de uma primeira liga espanhola ou de uma primeira liga na Austrália.

Austrália?

Sim. Adorava ir para a Austrália. A liga australiana começa em maio, ou seja, acaba a NCAA e vou para a Austrália, e depois da Austrália venho para a Europa. E não parar.

Porquê a Austrália?

Joguei com jogadoras australianas e a primeira liga é super competitiva, pagam bem, é uma das ligas mais competitivas do mundo. E seria uma experiência diferente.

O basquetebol português teve mais de 20 atletas na Division I este ano, a grande maioria mulheres. Sentes-te uma embaixadora do basquetebol português nos Estados Unidos?

Sim. Acho que toda a gente está a fazer um excelente trabalho e só mostra que todos os anos podemos vir a ter mais, porque estamos todos a ter um grande impacto aqui.

Acompanha tudo sobre Basquetebol em Portugal através das nossas redes sociais: Facebook, Instagram, X e TikTok.

FOTOGRAFIAS | DR 
Atletas
14 MAI 2026

Mais Notícias