Ana Barreto: ” O meu apelido é mais inspiração do que pressão”
Ricardo Brito Reis esteve à conversa com a jogadora
Atletas
3 MAR 2026
Ana Barreto está no último ano na Queens University of Charlotte a fazer os melhores números da carreira universitária e mais de 30 minutos por jogo na NCAA Division I. Após quatro anos nos Estados Unidos, a base-extremo lusa fala sobre a evolução que a tornou numa jogadora completa e sobre a ambição de chegar ao mais alto nível europeu.
Estás no último ano em Queens. Estes quatro anos nos Estados Unidos passaram rápido?
Bastante rápido, muito rápido. Para mim ainda é difícil de perceber que já é o quarto ano e que a época já está a acabar. É difícil de entender mesmo.
Fizeste dois anos em Ball State antes de te transferires para Queens. Como foi essa decisão e o que te convenceu de que Queens era o sítio certo?
As experiências foram completamente diferentes. Em Ball State não jogava tanto — no primeiro ano não joguei nada, no segundo ano já era da rotação mas não jogava tanto e não era uma das principais da equipa. Meti o meu nome no portal, os meus pais estavam super nervosos, porque o portal de transferências é maluco — toda a gente quer transferir-se e está cada vez mais difícil arranjar uma equipa. Foram uns meses stressantes, porque nunca se sabe: vou arranjar equipa? Fico sem equipa? Tive várias ofertas, fiz várias visitas, e Queens acabou por aparecer, também por ajuda do Carlos Andrade, que esteve em Queens há uns anos. Eu estava à procura de uma faculdade onde pudesse jogar mais, ter mais impacto como jogadora, que fosse perto de uma cidade — porque Ball State era no meio do nada — e num estado com melhor clima, porque Charlotte é bastante parecida com Portugal nesse aspecto. Mas estava sobretudo à procura da energia da treinadora, para sentir que aquele lugar era casa. E foi isso. Meti o nome no portal e passado duas semanas já estava a assinar com Queens.
Charlotte é uma cidade com tradição de basquetebol. O que tem de especial para ti?
Charlotte e Indiana são completamente diferentes. Em Indiana não havia nada para fazer. Em Charlotte, a nossa universidade tem bastantes conexões com a cidade – mesmo não sendo de desporto, se alguma vez quiser voltar e trabalhar nos Estados Unidos, consigo arranjar trabalho aqui em Charlotte só pelas conexões que Queens tem com Charlotte. Academicamente é bastante bom, e depois com desporto temos tudo: basquetebol, futebol, futebol americano. É uma cidade com vida. Não é das cidades muito grandes, mas está a crescer e tem bastante vida.
Queens está em transição para a Division I e jogam contra equipas como South Carolina e Kentucky, onde pode estar uma All-American ou uma futura jogadora WNBA. Como foi essa experiência vindo de Ball State?
Em Ball State também tive a oportunidade de jogar contra Notre Dame e contra UConn. Mas é sempre bom quando calham jogos assim contra equipas maiores, para ter aquela experiência americana, contra equipas grandes, contra jogadoras que vão jogar na WNBA. Contra a South Carolina, por exemplo, eu parecia num filme — não estava a acreditar que estava ali. Mas é sempre bom porque é uma experiência diferente.
Este ano estás a fazer excelentes números e a jogar mais de 30 minutos por jogo. Era isto que procuravas ao mudar para Queens?
Sim, era jogar bastante. O meu objetivo é ir jogar para a Europa no próximo ano, portanto estava bastante preocupada com os meus minutos — se estivesse numa equipa onde não jogasse, não fazia sentido. O principal objetivo quando me transferi foi arranjar uma equipa onde pudesse jogar e pudesse fazer os meus números.
Uma das coisas que tem saltado à vista é o teu lançamento de três pontos – muito volume e bastante eficaz. Como evoluiu esse aspecto do teu jogo?
Eu sempre fui uma jogadora que, desde pequena, jogou em várias posições — joguei a extremo, depois tive bastantes anos de poste que não gostei nada, mesmo nada. E finalmente este ano jogo a base e a extremo. O lançamento de três pontos é uma coisa que me sai naturalmente, para ser sincera. Gosto de lançar bastante, treino muitos lançamentos de três pontos para depois no jogo ser mais fácil e eficaz.
Que outras áreas do jogo trabalhaste mais nestes últimos dois anos que te tornaram uma jogadora mais completa?
Jogar a base. Já há muitos anos que não jogava a base — desde sub-16, provavelmente. No início desta época não estava tanto a jogar a base e era mais aquela que lançava e marcava mais. Agora como jogo mais a base, também gosto, porque gosto de jogar para a equipa e gosto de fazer assistências. Acho que desenvolvi a tomada de decisão. Jogamos bastante bloqueio direto.
Essa versatilidade é importante para o futuro. Quando fores para a Europa, podes oferecer a um treinador várias opções: jogar extremo, lançar, jogar sem bola e com bola.
Sim. Quando estava em Ball State eu era só lançadora — era aquela rapariga que estava lá para defender e para lançar. Quando vim para Queens desenvolvi muito mais o jogo com bola.
Nestes dois anos tens a companhia da Magda Freire. Qual a importância de ter uma colega portuguesa?
Sim, é bom. Às vezes até misturamos o português com o inglês. Mas é sempre bom ter uma portuguesa contigo nos Estados Unidos — sentes como se estivesses em casa. Quando precisas de um bocadinho de português, temos uma a outra. Mesmo nos jogos acontece bastante: falamos em português e as pessoas não entendem. Mas é sempre bom porque estamos tão longe de casa, e ter alguém que fala mesmo a língua e nos percebe culturalmente é muito bom. E de vez em quando há a surpresa de jogar contra outras portuguesas — este ano joguei contra a Andrea Chiquemba, que está em Bellarmine. O ano passado, quando estava em Ball State, jogava contra a Inês Bettencourt. É sempre bom quando calha jogar contra elas.
No verão estiveste nas Universíadas, onde foste uma das jogadoras em maior destaque. O que representou para ti essa experiência?
Sinceramente, eu não sabia para o que é que íamos, não tinha a noção do evento tão grande que é – é tipo uns Jogos Olímpicos para as pessoas que estão na faculdade. Gostei até mais do que os europeus, porque foi um ambiente mais tranquilo, e conhecemos muita gente de outros países. Com o basquetebol foi engraçado, porque são tantas gerações diferentes que se juntam. Tivemos estágios durante umas duas semanas – não foi como no europeu, que temos estágios de um mês, dois meses – e nem tivemos jogos de treino antes do torneio. Acabou por correr bem – foi fluindo de jogo para jogo. O Ricardo Vasconcelos ficou impressionado negativamente comigo quando cheguei lá, porque disse que a minha confiança estava bastante baixa nos estágios. Depois nos jogos correu bem. Ser treinada pelo Ricardo Vasconcelos é sempre bom. Já tínhamos treinado com ele no CAR, mas agora como somos mais velhas é diferente – ele percebe tanto de basquetebol e é de loucos.
Representaste Portugal em todos os escalões jovens, passaste pelas Universíadas e tiveste contacto com o Ricardo Vasconcelos, selecionador da equipa sénior. A porta das séniores está a abrir-se?
Espero que sim. Estamos aqui nos Estados Unidos, um bocadinho mais de lado, mas sei que com calma vou chegar lá. Não há pressa.
Passaste pelo Centro de Alto Rendimento da FPB. Como foi essa experiência e como te preparou para os Estados Unidos?
Para mim não foi assim tão diferente, porque eu estava a dez minutos de casa. Mas foi uma experiência que gostei bastante – somos tão novas, saímos de casa tão novas, treinamos com a Mariyana Kostourkova, que é basicamente uma preparação para a seleção no verão. Temos uma rotina de escola e treinos, e é basicamente o que vivemos aqui nos Estados Unidos. Acho que foi uma boa preparação. Gostei bastante, e ficámos todas muito próximas – ainda falo com bastantes pessoas que estiveram no CAR comigo. Uma coisa que foi bastante difícil foi conciliar os estudos com o basquetebol, porque as minhas notas sofreram um pouco.
As notas melhoraram nos Estados Unidos?
Sim, sim, sim. Aqui é tudo muito mais fácil.
No CAR treinaste dois anos no Pavilhão Hermínio Barreto. Como era entrar todos os dias num pavilhão com o nome do teu avô?
Ao início é aquela coisa – “ah, é o pavilhão do meu avô” – mas depois já é rotina, acabo por me esquecer que é o Pavilhão Hermínio Barreto. É sempre bom ter o nome do meu avô no pavilhão, mas depois já acaba por ser rotina.
Escreveste um tributo ao teu avô, há uns anos, onde dizias que querias usar o número dele. E agora usas o 10 em Queens.
Sim, estou a usar o número 10. Ele usou o número 10. Eu sempre usei o 10 por causa do meu avô – em Ball State no primeiro ano não havia o 10 disponível, e no segundo ano mudei logo para o 10.
O teu avô é uma das maiores figuras do basquetebol português. Jogador, treinador, selecionador, professor, autor. Carregar o apelido Barreto é mais inspiração ou mais pressão?
Não é pressão de todo. O meu avô nunca me fez pressão para jogar basquetebol, pressão para ser boa – nunca. Os meus pais não são assim. É mais um sentimento de admiração e de inspiração do que pressão.
O teu plano é vir para a Europa. Qual é o destino ideal?
Eu acho que a Espanha é sempre o sonho na Europa. Acho que vou acabar por ir para a Liga Challenge, porque é a porta de entrada de muitas portuguesas. Mas a Liga Endesa – essa é a ambição.
Viste o EuroBasket deste verão, a estreia histórica de Portugal?
Vi os jogos todos. Foi incrível. Foi a primeira vez que Portugal foi ao europeu – é onde todas as seleções querem estar – e acredito que as jogadoras que estiveram lá aproveitaram ao máximo. Até quando ganharam o primeiro jogo foi bom ver Portugal naquele palco tão grande.
A seleção está a rejuvenescer. O Ricardo Vasconcelos tem chamado jogadoras mais novas. Isso é uma motivação adicional para a tua geração?
Sim, é uma motivação, porque significa que estão a olhar para as gerações abaixo. Pode ser que comecem a chamar-nos, nem que seja para os estágios – não estou já a falar para os jogos, mas pelo menos para termos aquela experiência de como é um estágio com a seleção nacional.


