Artigos da Federaçãooo
De 2007 a 2011 pela voz dos protagonistas (parte II)
Continuamos a revisitar aquilo que foram as duas prestações lusas nos Europeus de 2007 e 2011 e desta vez os porta-vozes da equipa das quinas são novamente dois jogadores que estiveram presentes nos dois momentos. Conversamos com os “interiores”, Miguel Miranda e Elvis Évora, que nos contaram qual era o espírito vivido pelos dois grupos e as dificuldades encontradas pelo caminho.
Com 126 internacionalizações seniores no currículo, Miguel Miranda não deixou de considerar os dois grupos bastante capazes, contudo recordou que em 2011 a equipa se viu afetada por algumas lesões: «os dois grupos eram coletivos fortes, em 2011 tivemos alguns infortúnios. Perdemos o Jorge Coelho e o Paulo Cunha durante a preparação e isso condicionou as coisas. Sem diminuir a qualidade dos jogadores que foram, era um grupo mais curto do que em 2007. Aí tivemos a sorte de não termos lesões, estivemos sempre fortes, da preparação até ao último jogo. Tínhamos uma rotação mais profunda», lembra.
O antigo extremo-poste da equipa das quinas não se absteve, no entanto, de qualificar o Europeu da Lituânia como uma experiência positiva, «foi um Europeu muito bom, demos tudo. Os jogadores dessa Seleção deram todos o máximo. Faltou-nos a ponta de sorte que tivemos em 2007. Tínhamos a Espanha, Turquia, Lituânia, Polónia… A um minuto do fim estávamos dentro do jogo com a Polónia. Não ganhamos devido a alguns erros, notava-se o cansaço na reta final», afirma.
Miguel Miranda também não deixou passar em claro a oportunidade e reconheceu mérito aos dois timoneiros da Seleção Nacional, sobretudo pela forma como lidavam com os atletas, «O coach Melnychuk incutiu outra mentalidade. Estava próximo de nós, acreditava tanto ou mais do que nós. Deixamos de ser a equipa que ia perder, para sermos a equipa que ia ganhar. Era uma abordagem completamente diferente. Por outro lado o Prof. Mário Palma já era um treinador consagrado que também confiava muito em nós, que nos dava liberdade. Quando algo corria menos bem, era o primeiro a assumir a responsabilidade», relembra.
Quem também não esqueceu os dois selecionadores foi Elvis Évora que, tal como os antigos companheiros de Seleção, se desfez em elogios a Valentyn Melnychuk e Mário Palma, «o Valentyn é das pessoas mais humildes que conheci. Era exigente e fez com que estivéssemos todos juntos. Representou o nosso país como se fosse português. O Prof. Mário Palma tinha uma liderança distinta, mas trabalhamos muito durante o Verão. É integro, tinha uma liderança forte, gostei muito de trabalhar com ele. A campanha até ao Europeu foi espetacular, fomos ganhando muitos jogos na preparação», recorda.
No entanto, para o poste da Seleção Nacional a presença nos dois europeus, embora com resultados diferentes, não deve deixar de ser louvável, «Houve uma euforia enorme em torno do primeiro Europeu, mas não deixou de ser um grande feito a qualificação para o segundo de 2011. Ambas as qualificações foram conseguidas contra adversários mais fortes», explica. Além das presenças nas fases finais dos europeus, o processo de apuramento em 2006 foi o que mais marcou Elvis: «qualquer jogador sente orgulho em representar a Seleção Nacional, mas há muitas viagens, muitos sacrifícios e jogos difíceis, como por exemplo na Bósnia, onde ganhamos. Mais do que o Europeu, marcou-me a qualificação de 2006», esclarece.
Para Elvis Évora a grande diferença entre 2007 e 2011 foi o fator surpresa, «Em 2007 era tudo novo, era uma motivação enorme. Em 2011 já conhecíamos a prova e apesar de estarmos motivados, isso nem sempre traz benefícios. Tínhamos outra perceção das coisas e a consciência que havia uma ou duas equipas que poderíamos “enganar”. Estivemos perto de vencer a Polónia, mas faltou qualquer coisa extra. Não tínhamos o “Betinho”, o Paulo Cunha, o Francisco Jordão e o Jorge Coelho em 2011, mas em 2007 também não contamos com o Carlos Andrade que merecia ter estado lá», terminou.
Team Lisboa, o embrião da segunda vida da Seleção Nacional de BCR
Aalsmeer, Holanda, é a terceira paragem obrigatória na resenha histórica do basquetebol em cadeira de rodas (BCR) português.
Em 1994, sob a designação Team Lisboa, Portugal retomava os contactos internacionais, depois de uma interrupção de 21 anos, e participava na Taça Andre Vergauwen, a segunda prova europeia mais importante de clubes. Victor Sousa, dirigente do Sporting CP-APD Sintra, então a cargo da área motora na FPDD (Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência), chefe de missão da delegação lusa, e Jorge Almeida, atual técnico dos sintrenses, um dos jogadores dessa Seleção, relembram o impacto da competição.
A disputa dos Jogos de Stoke Mandeville, em 1973, marcara a derradeira aparição da Seleção portuguesa, antes de um longo interregno, traduzido num fosso galopante face aos restantes países europeus, nomeadamente à vizinha Espanha, que nunca cessou a entrada em certames internacionais desde 1969. Por isso, vislumbrada a oportunidade, Portugal não podia esperar mais. “Iniciados o 1.º Campeonato (1991), a 1.ª Taça e a 1.ª Supertaça, as primeiras ações de formação de árbitros e classificadores, tendo sido realizada anteriormente a primeira ação de formação para treinadores, seria lógico avançar para a constituição de uma Seleção Nacional”, comenta Victor Sousa, impulsionador das ações elencadas, na qualidade de vice-presidente para a área motora da FPDD.
Um hiato tão prolongado não se prestava a qualquer incúria ou excesso em termos organizativos, nem se apresentava como solução lógica a integração imediata em provas de seleções, pelo que, consultada a IWBF Europa, surgiu a sugestão do organismo de jogar uma competição de clubes com o nome “Team Lisboa”. Para Jorge Almeida, um dos atletas selecionados, o traquejo proporcionado trouxe dividendos à modalidade em Portugal. “Foi uma experiência deslumbrante, descobrimos um mundo de BCR mais evoluído, que nos permitiu aprender imenso”, apesar do agora treinador do Sporting CP-APD Sintra creditar ao 1.º Europeu da Seleção, na Eslovénia, em 1996 – dois anos depois -, um potencial mobilizador mais significativo para a evolução lusa.
Victor Sousa reputa Aalsmeer como “fonte de aprendizagem” de um prisma organizativo, mas releva sobretudo o aprofundamento da “certeza de que se tornava fundamental realizar ações de formação técnica massiva”, algo que viria a acontecer em 1994 e 1995, numa parceria FPDD/ IWBF-Europa. Outra das determinações que emanaram da estadia na cidade holandesa foi acelerar a redução da pontuação por equipa em campo, que se cifrava nos 18 pontos à escala nacional, quando as leis do jogo ditavam 14,5. “A conjugação dos dois aspetos alterou mentalidades, na medida em que criou oportunidades para os jogadores das classes baixas e passou a ser importante que os praticantes tivessem como objetivo chegar à seleção”, frisa o dirigente e ex-jogador da APD Sintra.
Encabeçava o corpo técnico Rui Calrão, treinador do GDD Alcoitão, “com quem se trabalhou muito bem para a altura”, enaltece Jorge Almeida, que constata um certo grau de ingenuidade das aspirações portuguesas prévias à partida. “Fomos bastante confiantes para a Holanda, desconhecendo o que nos esperava”. Na ótica do atleta, o antigo base da APD Lisboa salienta a familiarização com “novas técnicas e movimento de cadeira”, ganhos no “passe, visao periférica e aperfeiçoamento do lançamento”, mas acima de tudo, a consciência coletiva do jogo. A partir daí, Portugal entraria na dinâmica europeia e acumularia mais duas experiências na Taça Andre Vergauwen, em 1995 e 1996, para se estrear neste último ano, conforme mencionado acima, no Europeu B, em Liubliana, Eslovénia.
De 2007 a 2011 pela voz dos protagonistas
Portugal esteve três vezes presente na fase final de um Europeu. A primeira das quais em 1951, mas depois de um hiato de mais de cinquenta anos afastados dos grandes palcos, a equipa das quinas voltou a alcançar a fase final da prova. Para recordarmos esses dois momentos falamos com três dos protagonistas da seleção de 2007, mas que em 2011 voltaram a elevar o nome do basquetebol português.
Philippe da Silva, base da Seleção Nacional nas duas fases finais, acredita que as qualificações para estes pontos altos surgiram devido ao trabalho que vinha a ser desenvolvido, «foram dois apuramentos diferentes, mas em qualquer um deles houve trabalho e sacrifício. Em 2007 tivemos tempo para criar um grupo forte com o Prof. Valentyn, o Prof. Orlando Simões e o Prof. Magalhães, algo que se foi construindo. Alcançamos uma certa maturidade. Estivemos a um nível elevado», conta. Agora treinador, Philippe da Silva não se coibiu de traçar o perfil dos dois técnicos que conduziram Portugal ao êxito, «são duas pessoas com grande caráter, para ser um grande líder é preciso ter um perfil forte. Enquanto treinadores tinham a sua filosofia e sabiam o que a equipa precisava de fazer dentro de campo», atira.
Quem partilha da mesma opinião é João Santos, que recordou a relação de Valentyn Melnychuk com os atletas: «O relacionamento com os jogadores foi determinante na medida em que nos soube gerir muito bem como pessoas e como jogadores. Soube tirar o melhor de nós. Aliado a isso, além de todo o conhecimento que tinha, ouvia-nos. Havia uma certa “liberdade” nas decisões durante o jogo. Era um treinador flexível e que se adaptava ao jogo e à sua realidade», recorda.
Contudo, o antigo extremo da Seleção lembrou ainda o trabalho realizado antes do apuramento de 2006, «importa referir os percursos, não podemos dissociar os anos que foram feitos antes dos europeus. Refiro-me ao trabalho que vem de trás, da “geração de ouro” com Nuno Marçal, Sérgio Ramos, Paulo Pinto, Luís Machado, etc… Essa geração também merece menção, até porque mesmo não chegando a nenhuma fase final foram importantes. Permitiu-nos fazer este percurso até 2007», lembra. Com 198 internacionalizações na carreira, João Santos considerou diferentes as duas prestações, «em 2007 trabalhávamos como uma família, muitos no auge da carreira, com boa atitude e vontade de conseguir algo. Em 2011 caímos num grupo muito forte, mas demos boa réplica.»
Por sua vez, Miguel Minhava aponta as diferenças no modelo competitivo dos europeus, recordando o feito histórico para o basquetebol nacional, «Em 2007 eram apenas 16 equipas, em 2011 eram 24 e já nos apuramos na qualificação com a Hungria e Finlândia. O grupo que se apura para o Europeu de 2007 era especial e marcou o basquetebol português. Conseguimos um apuramento histórico. Em 2011 demos boa conta do recado», esclarece. Ciente do esforço que tinha de ser feito para estarem ao patamar das restantes equipas, o ex-base relembra a exigência que estava presente na cabeça de cada um dos jogadores, «em 2007, onde conseguimos vencer alguns jogos, demonstramos a nossa qualidade. Para nos batermos com muitas seleções tínhamos de estar a 110%. No dia em que estávamos abaixo eramos cilindrados, tínhamos de estar sempre no máximo. O Valentyn estabeleceu um sentimento muito forte dentro da equipa. Havia uma grande ligação afetiva e isso é o suficiente para potenciar os jogadores.»
Já no segundo Europeu da carreira, Miguel Minhava não descartou a qualidade dos convocados, mas além da preparação destacou que a ligação entre todos não era tão intensa como o tinha sido no Europeu de Espanha: «Com o Prof. Mário Palma tínhamos um grupo com personalidades diferentes, não havia o mesmo sentimento. O grupo era bom, mas em 2006 criamos laços muito fortes, em 2011 foi uma preparação diferente, mais rápida», concluiu.
2007 e 2011: Europeus para a eternidade (parte II)
Luís Avelãs e Pedro Belo da Fonseca, jornalistas do Jornal “Record” e da Agência “Lusa”, respetivamente, têm duas coisas em comum: uma enorme paixão pelo basquetebol (ambos já praticaram a modalidade) e viveram de perto as participações de Portugal nos Europeus de 2007 e 2011.
Podemos dizer que Luís Avelãs é um privilegiado, pois seguiu no terreno as Seleções Nacionais em Espanha e na Lituânia. O experiente jornalista lembra todos os anos em que acompanhou Portugal, até que o sonho se tornou realidade: “Ao longo dos anos marquei presença em muitos jogos da Seleção e lembro-me de estar em várias fases iniciais de apuramento para o Europeu, concentradas, onde invariavelmente Portugal era qualificado para a segunda fase, mas em que depois, sem surpresa, não conseguia seguir em frente. Passou muito tempo, mas a verdade é que esse desejo cumpriu-se. É sempre especial estar numa competição dessas e ver lá o nosso país”, afirma.
No Europeu de 2011 a tarefa portuguesa revelou-se mais complicada por diversos fatores, segundo Luís Avelãs: “Em 2011 a equipa tinha menos poderio atlético, alguns elemento pouco rodados ao mais alto nível, menos entrosamento, não fez uma preparação tão forte e não apareceu na sua máxima força. Ainda assim, Mário Palma conseguiu “inventar” soluções e não ficámos assim tão longe de poder ganhar jogos, nomeadamente diante da Polónia”, recorda.
Avelãs reconhece que o Europeu de 2007 foi particularmente “especial” para si, visto que acompanhou quase toda a preparação, e elenca os pontos fortes da turma lusitana: “A defesa aguerrida, sem receio de enfrentar os gigantes adversários, era um dos seus principais trunfos. Isso e a confiança que os jogadores adquiriram por parte do Valentyn Melnychuk, que “mexia” na cabeça dos jogadores, sem esquecer uma preparação muito bem delineada e um grupo de atletas dispostos a tudo para conseguir algo numa oportunidade que ninguém sabia se voltaria a aparecer nas suas carreiras. João Santos e “Betinho” surgiram muito bem no Europeu, mas Philippe da Silva raramente esteve ao seu melhor nível (bastaria perto do que fez na preparação para tudo ser melhor) e Sérgio Ramos pouco ou nada contou (por razões que já não interessa debater) quando ainda podia ajudar imenso”, analisa.
Igualmente em Espanha esteve Pedro Belo da Fonseca, que não esconde o entusiasmo quando relembra a quantidade de craques na grande competição: “Foi uma sensação incrível poder acompanhar a Seleção portuguesa numa fase final, junto aos melhores jogadores da Europa, a uma série de estrelas da NBA (Nowitzki, Gasol, Parker, Kirilenko, Belinelli, Calderón…), e num país que “respira” basquetebol”, refere.
O jornalista de 50 anos explica a receita do sucesso: “Penso que o segredo para o sucesso foi a união que existia entre jogadores, técnicos e também dirigentes. Portugal não tinha grandes talentos, não tinha nenhum jogador a alinhar ao mais alto nível, mas conseguiu criar um conjunto sólido, que, muito bem conduzido por Valentyn Melnychuk (a quem envio um grande abraço), acreditou que poderia surpreender e mostrar, num grande palco, que também sabia jogar basquetebol”, salienta.
Pedro Belo da Fonseca faz questão de recordar a histórica passagem à 2.ª fase, que culminaria na obtenmção do 9.º lugar: “Portugal parecia condenado à eliminação, pois era preciso que a Croácia, que tinha perdido com a Letónia, vencesse a Espanha. O jogo foi depois do de Portugal e acho que ninguém acreditava (eu tinha dito à minha mulher que ia para casa no dia seguinte…), mas o “milagre” aconteceu, com os croatas a vencerem a equipa da casa por um ponto. Portugal estava na segunda fase, em Madrid, no palco principal e, ainda mais desinibido, aproveitou para brilhar e conseguir nova grande vitória, face a Israel, com o “Betinho”, Jordão, Philippe da Silva e o João Santos em grande, entre derrotas com a Rússia e a Grécia. Melhor era impossível. Espero que um dia se repita”, deixa o desejo.
“Em Linha” com Marco Galego
Treinador desde 1996, abraçou a vertente sobre rodas da modalidade em 2014, para orientar o colosso espanhol, Mideba Extremadura. Chegou ao cargo de selecionador nacional de BCR na época 2016-17, função que acumula com a de treinador na formação da ABA – Associação Basquetebol Albicastrense. O técnico elvense Marco Galego é o protagonista da segunda edição do “Em Linha”.
Ano de iniciação como treinador (Basquetebol a pé e/ou BCR): Basquetebol a pé – 1996; BCR – 2014
Clubes/seleções orientados: Portugal – Clube Elvense de Natação, O Elvas CAD, Eléctrico Futebol Clube (na Liga Placard), Associação de Basquetebol Albicastrense, Seleções Regionais do Alentejo, Seleção Nacional de BCR; Espanha – Baloncesto Femenino Badajoz, Asociación Baloncesto Pacense, Guadalupe Baloncesto Pacense, Mideba Extremadura (BCR), Baloncesto Badajoz, Seleção Zonal da Extremadura
Palmarés: Campeão do Alentejo de juniores femininos; Campeão da Extremadura de juniores femininos; Subida à Liga feminina (Espanha); Subida à Liga feminina 2 (Espanha); Campeão da 1.ª Divisão feminina (Espanha).
Jogo(s) da tua vida (e porquê): o jogo de subida à Liga Feminina, em que levámos toda a noite a prepará-lo. De todos os rivais que havia, era o que tínhamos menos conhecimento; começa o jogo e aos 4 minutos estamos a perder 24-2. Sem descontos de tempo já, até ao fim foi um “step by step” até à vitória. O jogo da Final Four da Taça do Rei em BCR, que começou com uma dura homenagem ao nosso falecido atleta, Luis Blancas. Claramente o jogo mais duro da minha vida.
Que mensagem dirigias a um treinador hesitante em treinar BCR?
É a experiencia mais incrível que alguma vez vais poder experimentar, com atletas simplesmente incríveis e sem limites. Se no basquetebol a pé houvesse 20% do espírito de superação do BCR, teríamos atletas nas melhores ligas da europa.
Quais os treinadores que exercem maior fascínio sobre ti e porquê?
José Pedrosa, pessoa com quem aprendi o bê-a-bá do basquetebol; Fernando Mendez, com ele aprendi a ser treinador; Norberto Alves, a minha referência em Portugal, desde que foi meu preletor do curso de grau 2; Jota Cuspinera, pela sua forma simples e direta na comunicação; Ricardo Vieira, pela pessoa que é e pelo muito, mas mesmo muito, que sabe de BCR.
Recorda-nos um momento caricato que tenhas vivido por treinar BCR.
Esse momento era com o jogador Paco, do Mideba, já que nunca jogava com cintos, logo, cada vez que havia um choque, lá ia ele voar.
Quais as competências que consideras essenciais para ser um treinador de sucesso?
Seguir sempre os nossos princípios, não treinar, não colocar a jogar um atleta só para agradar alguém. Ter sempre na mente que o mais importante é a equipa.
Em linha, a defesa que todos os treinadores querem, mas poucos conseguem. Qual a receita para lá chegar?
Muita comunicação entre os atletas, forte domínio da cadeira e, obviamente, uma boa capacidade física.
Nota: A defesa em linha é a mais cobiçada pelos treinadores de BCR. Consiste em dispor os atletas ao longo da linha dos três pontos, limitando o raio de ação e tempo de ataque da equipa adversária.
2007 e 2011: Europeus para a eternidade
As participações de Portugal nos Europeus masculinos de 2007 e 2011 estarão perpetuadas na história do basquetebol nacional. Valentyn Melnychuk, que comandou a Seleção em Espanha, e Mário Palma e Mário Gomes, selecionador nacional e seu adjunto na Lituânia, quatro anos depois, falaram sobre as façanhas lusas.
Foi em 2011 que Portugal marcou presença pela última vez numa grande competição, no caso o EuroBasket, na Lituânia, e logo no chamado “grupo da morte”, o que tornou muito difíceis as nossas contas. “Se tivéssemos vencido a Finlândia, no apuramento, estou convencido de que teríamos passado à 2.ª Fase do Europeu”, atira Mário Palma.
Já Mário Gomes enaltece a proeza, apesar das dificuldades: “A presença no EuroBasket 2011 teve o significado que julgo que terá para qualquer treinador. Foi, e é, uma honra e um privilégio fazer parte daquela equipa. Por outro lado, conseguirmos a qualificação constituiu uma enorme alegria e um prémio merecido para todos quantos ajudaram a concretizá-la, tanto mais que a mesma foi bastante difícil”, realça.
Mário Palma mostra o seu total reconhecimento para com a formação que orientou: “Foi o fim de uma grande era do basquetebol português. Esta Seleção merece a nossa admiração. Os jogadores foram extraordinários, adaptaram-se a toda a exigência”, aplaude.
O treinador de 69 anos, dono de um currículo invejável, prossegue nos elogios: “Não esqueço os desempenhos de jogadores como Philippe da Silva, António Tavares ou Miguel Miranda”, ressalva, antes de assumir que se tratou de “uma etapa boa” da sua vida.
Quatro anos antes, no Europeu 2007, em Espanha, a Seleção Nacional conquistou a melhor posição de sempre, depois de se classificar no 9.º lugar. Valentyn Melnychuk não esconde a felicidade: “Estar ligado ao maior momento da história do basquetebol sénior português é um grande orgulho para o país, para a modalidade, para os jogadores e treinadores, sem esquecer os seus clubes e famílias!”, frisa.
O carismático técnico ucraniano não esquece o apoio dado ao longo do apuramento para a prova do país vizinho: “Cada jogo da qualificação foi importante e decisivo. Muito daquilo que fizemos deveu-se à Federação, que nos apoiou totalmente com uma grande preparação”, lembra.
Já no Europeu, Portugal logrou alcançar duas vitórias, num feito notável, mas Melnychuk recorda a confiança que imperava na equipa: “Depois de nos apurarmos para o Europeu, sempre acreditámos que podíamos ganhar alguns jogos. Entrávamos em campo com uma enorme vontade. Foi um grande orgulho seguir para a 2.ª Fase, porque fomos para Madrid defrontar as melhores equipas da Europa e mostrar que os portugueses sabem jogar basquetebol!”, vinca.
Melnychuk, atualmente com 80 anos, faz questão de referir sempre o lado dos atletas “As melhores memórias que guardo passam pelo orgulho que sinto do nosso trabalho. A Europa ficou a saber que os portugueses poderiam jogar nos melhores clubes”, para depois assumir que este foi o “maior momento da sua carreira”.
“Man Out” a Manuel Sousa
Carismático, cortês e um exemplo que atravessa gerações. A caminho dos 67 anos, Manuel Sousa ainda não perdeu o fulgor competitivo e continua a somar minutos na APD Leiria, “casa” a que se dedica incessantemente, dentro e fora do campo. No emblema do centro do país venceu três Campeonatos Nacionais, duas Taças de Portugal e uma Supertaça. Representou a Seleção Nacional no Campeonato da Europa C, em 2005, realizado em Lisboa.
Data de nascimento: 17/11/1953
Ano de iniciação: 1980, na equipa de Alcoitão
Posição: Extremo
Clube: APD Leiria
Palmarés: 3 Campeonatos Nacionais, 2 Taças de Portugal, 1 Supertaça
O jogo da tua vida: Sem dúvida nenhuma, quando ganhámos pela primeira vez o Campeonato Nacional (2008-2009)
Chamam ao BCR a modalidade paralímpica rainha. Se tivesses que convencer alguém a ver ou praticar, como “vendias” o basquetebol em cadeira de rodas?
Em qualquer desporto, tens que gostar do que fazes. Diria que o BCR é um jogo colectivo e em que jogador e cadeira de rodas passam a ser um único elemento. Todos são de igual valor dentro da equipa. Requer muita preparação física, sacrifício, entrega e atitude. Uma equipa é uma família que deve compartilhar as suas preocupações e dificuldades, tal como respeitar todos os elementos envolventes.
Qual ou quais os jogadores que exercem maior fascínio sobre ti?
O jogador que tenho como referência é um elemento da minha equipa. Chegou, quase não falava. Esteve muito tempo no banco sem contestação. Mais tarde, veio a revelar-se um jogador exemplar. Respeitador, humilde e educado. Tem um enorme potencial físico e visão de jogo. É o nosso Iderlindo, “Éder”.
Recorda-nos um momento caricato que tenhas vivido por jogar BCR.
Tive alguns e assisti a outros. Depois de terminar a Meia-Maratona de Lisboa, fui trocar de cadeira de rodas e jogar BCR em Alcântara, no pavilhão da Academia de Polícia. Noutra situação, o árbitro parou o jogo, dirigiu-se a um jogador e mandou-o colocar uma maçã no caixote do lixo, que andava a comer durante o jogo.
Qual o teu movimento, gesto ou momento do jogo favorito?
O movimento que mais me caracteriza: tentar bloquear o adversário e desbloquear os colegas de equipa.
Qual o jogador a quem gostavas de fazer “Man Out”?
Gostaria de fazer “Man Out” a um jogador que gosto particularmente. Fomos colegas de seleção há alguns anos. Se conseguisse fazer isso, era sinal de que estaria muito bem fisicamente. O meu amigo Hugo Lourenço.
O “Man Out” é essencial no BCR. Na elite – mas não só -, todas as equipas adotam esta estratégia que consiste, após a recuperação da posse de bola, em reter um adversário com um, ou idealmente mais jogadores, no seu reduto ofensivo de forma a atacar em superioridade numérica. O espaço ocupado pelas cadeiras torna uma missão árdua recuperar a posição perdida, de modo que o “Man Out” é uma tónica constante no jogo de BCR, privilegiando-se como alvos, claro, os elementos mais lentos da equipa adversária.
Um momento para a história
O basquetebol português viveu um momento de grande fulgor marcada na primeira década deste século, com a presença no Europeu masculino de 2011, na Lituânia, a ser um dos grandes destaques.
Dedicamos esta semana a essa Seleção Nacional, e por isso poderão recordar três dos jogos de há nove anos, esta segunda, quarta e sexta-feira, a partir das 21h30.
Jogadores marcantes #4: Henrique Sousa
Redefiniu o papel do jogador de pontuação baixa, ganhou todos os troféus nacionais e revelou-se imprescindível na conquista do Europeu C, em 2007. Da prática de motocross, Henrique Sousa trouxe a mentalidade competitiva insaciável que, aos 37 anos, o faz continuar a ambicionar novos títulos na APD Braga e um eventual regresso à seleção.
Há um antes e um depois de Henrique Sousa, na forma de encarar o atleta de pontuação 1.0 em Portugal. Se no BCR moderno a tendência caminha para um envolvimento de todos com a bola, independentemente da sua classe de pontuação, no início de século, a prerrogativa restringia-se em larga escala aos chamados “grandes”, designação que mescla a alusão à altura e maior funcionalidade. Logo após o batismo no BCR, a meta afigurava-se clara. “O meu objectivo foi sempre ser melhor do que todos os atletas da minha pontuação, então treinava como se de um jogo se tratasse, empenhando-me o máximo que conseguia”, afirma sem rodeios o atleta de Gondomar, “sem referências”, pois tem como tónico para a sua evolução tentar “ser igual ou melhor” do que os jogadores acima da sua pontuação, em particular 2.0 e 2.5.
Embora sem um compromisso imediato com a modalidade, o primeiro contacto durante a reabilitação no Instituto Guttmann, em Barcelona, permitiu-lhe recuperar “a parte da competição, algo perdido recentemente” e fazer amizade com Agustín, atleta de BCR que, de viagem ao Porto para participar num torneio internacional, persuadiu Henrique a assistir. A partir daí, começaria a treinar com a APD Porto.
Para trás ficava uma carreira auspiciosa no motocross, mas a herança do passado desportivo longe de se tornar estéril. “Costumo dizer aos meus alunos da 71 MX School que um bom piloto no motocross pode ser bom atleta em qualquer outra modalidade, porque somos habituados a treinar no limite; treinamos atletismo, natação, ciclismo, etc”, explica. Desavindo com as motas numa fase inicial após o acidente, retomou a paixão graças a um incentivo familiar. “Os meus pais decidiram comprar-me uma Moto4 e tudo começou novamente, o vício, a adrenalina dos motores, o barulho, e claro, a liberdade que me trouxe”, conta Henrique, cuja participação no Campeonato Nacional de Todo-o-Terreno de 2006 só não ocorreu devido ao “travão” da Federação. “Ligaram-me a dizer que não me deixavam participar, porque tinha uma estrutura metálica na coluna e o médico não autorizava”. Com os irmãos, fundou uma equipa em 2009 e recentemente a 71 MX School, na qual ensina jovens pilotos, ocupações que conjuga com o trabalho e o basquetebol, ciclo ainda por terminar.
Na APD Braga venceu 5 Campeonatos Nacionais, 6 Taças de Portugal e 6 Supertaças, pela seleção disputou 6 campeonatos da Europa, com ênfase óbvio para a conquista da Divisão C em 2007, mas não tenciona ficar por aqui. “Quero ajudar a minha equipa ao máximo, gostava ainda de jogar fora de Portugal, dedicar-me a 100%, para perceber até onde chegariam as minhas capacidades, e poderei dar o meu contributo à seleção se o entenderem”. Assim fala um competidor nato.
Ricardo Vieira, técnico da APD Braga e Selecionador Nacional Sub22
“O Henrique é sinónimo de compromisso. Sendo de outro distrito e trabalhando todos os dias, não faltar um treino, mesmo com problemas de saúde, é algo realmente louvável. Personalidade introvertida, de poucas palavras, mas um verdadeiro atleta no sentido total da palavra. Basta confessar que fez praticamente toda a época passada com problemas de saúde e recordo-me do que disse nos jogos da final: ” Quero lá saber como vou ficar depois dos jogos, quero ajudar a equipa e ser campeão!” Isto depois de conversar com ele sobre não ir aos jogos. É para mim o melhor 1.0p com quem já convivi e treinei, e felizmente treino. Muito contente por estar em Braga.”
FPB e Liga Master discutem futuro da competição
A Federação Portuguesa de Basquetebol continuou a auscultar todos os envolvidos nas competições sob a égide federativa e desta vez reuniu-se com o responsável da Liga Master Dhika.
Numa sessão que se pautou pela harmonia entre as várias partes envolvidas, Rui Mourinho, Presidente do Comité Nacional do Basquetebol Master, começou por tecer aquelas que são as considerações acerca da Liga Master para a resolução da presente temporada, e que poderá passar pelo cancelamento da prova da presenta época ou pela sua conclusão no início da próxima época desportiva.
A 5.ª edição da competição seria disputada na época 2020/21, sendo devidamente enquadrada e ajustada com vista ao aumento do tempo disponível para competir. Além disto, foi ainda transmitida a vontade em transitar as taxas pagas este ano para a próxima temporada, tendo em consideração que apenas foram disputadas 3 jornadas da prova, com a exceção do seguro desportivo que terá de ser renovado no próximo ano.
Foram ainda tecidas considerações acerca do possível aumento do número de clubes participantes na Liga Master, do seu alargamento territorial e de um possível reajuste no modelo competitivo, bem como o respetivo enquadramento no programa Valorizar.
Além do Presidente da FPB, Manuel Fernandes, e do Presidente do Comité Nacional do Basquetebol Master, Rui Mourinho, realça-se a presença do Diretor Técnico Nacional, Nuno Manaia e do Secretário-Geral, João Carvalho.
Futuro da Liga Placard debatido em reunião
Foi através de videochamada que a Federação Portuguesa de Basquetebol auscultou todos os clubes da Liga Placard e a totalidade das associações dos emblemas da prova, sobre os cenários em cima da mesa em relação à época 2019/20.
O presidente da FPB, Manuel Fernandes, abriu o debate com uma declaração em que sublinhou que a Federação tem procurado ouvir todos os agentes desportivos com o objetivo de encontrar soluções. Depois de uma introdução com foco nas consequências económicas que vão surgir após a pandemia de COVID-19, em que lembrou a esperada queda das receitas das apostas desportivas, o líder federativo anunciou que os clubes que não consigam garantir os pressupostos financeiros para continuar na Liga Placard poderão jogar no escalão imediatamente inferior (Proliga), e não no último nível competitivo. Manuel Fernandes acrescentou, ainda, que serão apresentadas propostas de medidas para a redução de encargos dos clubes na próxima temporada.
Os clubes da Liga Placard (Ovarense/Gavex, CAB Madeira SAD, Esgueira/Aveiro/OLI, Barreirense/Optimize, FC Porto, Galitos Barreiro, Illiabum Clube, Maia Basket Clube, SC Lusitânia, SL Benfica, Sporting CP, Terceira Basket Club, UD Oliveirense e Vitória SC) foram, então, ouvidos sobre as questões desportivas e económicas que enfrentam atualmente e apresentaram os argumentos que contribuíram para o debate. Seguiram-se as associações de basquetebol presentes na videoconferência, num total de 44 participantes.
Também marcaram presença na reunião o Diretor Executivo da Liga Placard, Pinto Alberto, o Diretor Técnico Nacional, Nuno Manaia, e o vice-presidente da FPB, Rui Frade. Para encerrar, o presidente federativo fez questão de agradecer todos os contributos e sugestões dos clubes e associações, que serão essenciais para as decisões que serão tomadas em relação à atual época de 2019/20 e ao impacto no arranque da temporada 2020/21, e assegurou que será tomada uma decisão até ao dia 30 de abril.
Reunião entre FPB e Proliga
A FPB reuniu-se com os clubes da Proliga e as Associações correspondentes esta quinta-feira, por videoconferência.
A reunião começou com uma intervenção de Manuel Fernandes, presidente da FPB, que assegurou que todos os compromissos assumidos com os clubes, para esta temporada, serão cumpridos na íntegra, não obstante a quebra de receitas extraordinárias com origem nas apostas desportivas em consequência da paragem das competições de basquetebol a nível mundial.
O líder federativo realçou que não serão necessários empréstimos, fruto da gestão cuidada e poupança realizada na FPB nos últimos anos.
Manuel Fernandes fez questão de garantir que nenhum clube será penalizado caso argumente não ter condições para disputar a Proliga na próxima temporada, podendo descer apenas um escalão competitivo.
O presidente enalteceu que nestes tempos muito difíceis, cabe a cada clube a melhor gestão possível.
Já José Pinto Alberto, diretor executivo da competição, pediu que cada clube perspetive a próxima temporada, de acordo com a sua situação financeira, e projetou que os cuidados que vierem a ser implementados para uma retoma da actividade em condições de segurança terão de ser transversais a todos os pavilhões. Referiu ainda alguns dos cenários possíveis para o eventual terminar da competição e/ou reinício em Setembro.
Todos os clubes presentes (Academia do Lumiar, Académica/Efapel, Angrabasket, AD Sanjoanense, Belenenses, CD Póvoa, Casino Ginásio, Ginásio Del Mar Marina, Imortal AlgarExperience, Sampaense Basket, SL Benfica e SC Braga) falaram sobre as consequências da COVID-19 na Proliga e nas outras atividades, deram contributos, ideias e sugestões para ultrapassarmos este período e partilharam as medidas que estão a tomar.
As Associações presentes (AB Algarve, AB Aveiro, AB Braga, AB Coimbra, AB Ilha Terceira, AB Lisboa e AB Porto) também deram os seus contributos em relação a esta competição.
Manuel Fernandes voltou a saudar o clima de união entre todos e a vontade de todos os clubes em prestar contributos, vincando que é impossível garantir uma data para o regresso à competição, o que não nos impede de passar uma mensagem de otimismo.
Participaram ainda nesta reunião os vice-presidentes Rui Frade, Miguel Pereira e Luís Veiga, o Diretor Técnico Nacional, Nuno Manaia, e o Presidente do Conselho de Arbitragem, António José Coelho. A assessora da direção Helena Cunha e o coordenador do departamentos de Marketing e Comunicação, António Carlos, também marcaram presença.
A próxima reunião FPB/Proliga está agendada para 13 de junho.